sábado, 31 de maio de 2014

O caso mais emblemático


J.-M. Nobre-Correia

Com olhos de europeu, o caso de Marcelo Rebelo de Sousa e da sua relação com os média portugueses é propriamente espantoso, inacreditável. Aqui está um personagem que diz ter estado entre os fundadores do PPD-PSD, que é seu militante, que foi seu presidente, que continua por intermitência a ser conselheiro em vista da direção do partido e, não mais tarde do que na semana passada, participava num “jantar-comício” da Aliança Portugal (PPD-PSD e CDS-PP) em Coimbra, tomando evidentemente a palavra para mobilizar os comensais.
Não impede que logo no dia seguinte ao das eleições europeias, Rebelo de Sousa estivesse na TVI a fazer de “comentador” ! Uma confusão de géneros que cultiva desde de sempre, primeiro no Expresso e agora na TVI, com uma ou outra travessia do deserto de vez em quando. E esta confusão de géneros — a que se vem acrescentar um insólito estatuto de conselheiro de Estado que, numa democracia a sério, lhe imporia o dever de reserva — parece não incomodar ninguém ou, na melhor das hipóteses, muito pouca gente. Não incomoda em todo o caso jornalistas e editores, pela boa razão que Rebelo de Sousa é um bom ator, no sentido teatral da palavra (como notou em tempos José António Saraiva em crónica do Expresso).
É claro que os espanhóis proprietários da TVI estão-se perfeitamente borrifando para o bom funcionamento do sistema democrático português, do seu meio político e do seu meio mediático-jornalístico. Para eles, o que é preciso é “animar a malta” com um máximo de divertimento (e Rebelo de Sousa sabe divertir, em todos os sentidos da palavra) e suscitar um máximo de receitas publicitárias e lucros (que têm dado muito jeito à ultra-deficitária espanhola Prisa). Pobre país que abandona assim o controle dos seus média de informação de grande audiência !…
Como está longe da Europa civilizada, de velha tradição democrática, este Portugal que se pretende europeu ! Imagina-se um só instante que um militante político (Rebelo de Sousa e todos os demais, mas ele é o caso mais emblemático) possa ser cronista, analista, comentador de um média da Europa democrática ? Peguemos num caso : o de Alain Duhamel, membro da Académie des Sciences Morales et Politiques francesa, autor de 16 livros e de numerosos artigos de ciência política, cronista político de muitos dos melhores média de referência em França desde 1963.
Em fevereiro de 2007, por ocasião de um debate no Institut d’Études Politiques, em Paris, Duhamel confessou que iria votar em François Bayrou nas eleições presidenciais de maio. O debate tinha apenas alunos do dito instituto como público. Mas foi o suficiente para que Duhamel fosse suspenso de toda e qualquer atividade de cronista na televisão France 2 durante o resto da campanha eleitoral que durou ainda quase três meses. Embora, que se saiba, Duhamel nunca tenha aderido a qualquer partido político.
Em Portugal, participa-se alegremente numa campanha eleitoral na terça-feira, em Coimbra, e vai-se comentar na TVI na segunda-feira seguinte, em Lisboa. Num pretenso espírito de independência de puro politólogo, duas noções a que Rebelo de Sousa é manifestamente estranho. O que não impede que as suas prédicas dominicais manobreiras estejam certamente ainda para durar, neste ou naquele jornal, rádio ou televisão. Com exceção dos média do grupo Impresa, de onde Francisco Pinto Balsemão o fez excluir, porque frequentou de perto Rebelo de Sousa e sabe o que a casa gasta [i]
Que Rebelo de Sousa, como professor universitário e conselheiro de Estado, se preste (ou aceite prestar-se) a tais encenações tão pouco jornalísticas e tão pouco politológicas, é dificilmente compreensível. Mas é-o ainda mais, muito mais, que tantos média deste país possam propô-las aos seus públicos, revelando assim a falta de respeito que têm por eles…



[i] Possa embora Rebelo de Sousa ser entrevistado hoje mesmo na « Revista » do Expresso

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Da minha janela em Bruxelas

J.-M. Nobre-Correia


15 de setembro de 2009


30 de janeiro de 2010


30 de janeiro de 2010


13 de dezembro de 2010


19 de dezembro de 2010


19 de dezembro de 2010


19 de dezembro de 2010

Como é possível tanto espaço verde no "meu bairro em Bruxelas" (série de fotos publicadas em 17, 19 e 21 de maio), perguntam alguns internautas. É simples : basta localizar a minha rua, mesmo em frente da minha universidade. Aqui fica o plano do bairro, com a praceta mesmo em frente da minha casa :


domingo, 25 de maio de 2014

Uma gramática própria

J.-M. Nobre-Correia
Rádio : Se o “Programa da manhã” da Antena 1 é globalmente insatisfatório, emissões houve ou há que são o que de melhor se pode esperar de um serviço público…
Já aqui se disse sobejas vezes que o “Programa da manhã” da Antena 1 não está à altura do que melhor se faz nas rádios públicas generalistas europeias. E até se explicaram as insuficiências da conceção da grelha e da execução de boa parte das suas componentes. É possível porém que haja programas de qualidade no resto do dia. Mas a rádio é sobretudo um média da manhã. E daí que o “Programa da manhã” seja tantas vezes evocado.
No cinzentismo geral Matinal, houve ou há todavia programas que foram ou são do que melhor se faz em rádio. E do que melhor se pode esperar de uma rádio de serviço público. Assim essa pequena maravilha que era “Um lugar ao sul” de Rafael Correia. Uma autêntica pérola em que, no melhor jornalismo de reportagem e de entrevista, se procedia a uma recolha de usos e costumes, de histórias, adágios, poemas, cantilenas e músicas das gentes deste país ligadas antes do mais à terra, ao campo, à ruralidade. Com um senão talvez : o de privilegiar largamente o país ao sul do Tejo, como se a norte e nas ilhas pouco ou nada tivesse interesse.
Há hoje, aos sábados de manhã, as emissões de Ana Aranha. E, atualmente, estas formidáveis (e formidavelmente trágicas) “Histórias clandestinas”. Construídas com talento, conduzidas com tato, deixando falar os entrevistados, não os interrompendo a todo o momento, fazendo embora as perguntas indispensáveis. Respeitando as especificidades da radiofonia, fazendo intervir os necessários separadores e procedendo à indispensável montagem. Emissões de uma extrema utilidade, para que os jovens saibam. E indispensáveis, para que a História não esqueça.
Estes exemplos provam claramente que há gente na RDP-RTP com talento. Jornalistas e produtores que sabem bem que, em rádio, pôr emissões “no ar” não consiste unicamente em pôr um encartado da profissão diante de um micro, lendo textos preparados ou, pior ainda, falando atabalhoadamente de improviso. Mas que há que concebê-las e realizá-las segundo uma gramática que é própria da rádio…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 17 de maio de 2014, p. 43.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um voto problemático


J.-M. Nobre-Correia
É preciso ter frequentado longamente as instituições europeias em Bruxelas para saber a que ponto os seus serviços de comunicação constituem um autêntico arsenal de propaganda. E que tudo é feito para seduzir afrontosamente jornalistas e média. Todas as facilidades lhes são oferecidas num ambiente geral de opulência. Do momento, é claro, em que o que os jornalistas escreverem, disserem ou mostrarem for globalmente favorável às instituições e aos seus responsáveis. De outro modo, a marginalização dos “ingratos” será discretamente decretada. Não se admirem pois se o que os média portugueses dizem da União Europeia é assim globalmente tão positivo, tão encantador, tão inevitável…
Fora de Bruxelas, de Estrasburgo e de Luxemburgo-Cidade, os cidadãos nem sequer imaginam o luxo de meios em que vivem os funcionários, os responsáveis, os membros de comissões e os diversos eleitos. Salários astronómicos e condições de trabalho privilegiadas. Pelo que esta gente é muito querida pelas autoridades das três cidades evocadas (pois aí gastam grande parte das remunerações) e detestados pelos outros cidadãos (que os veem usufruir de regalias e levar um estilo de vida muito acima daquele que é o deles).
Os funcionários das instituições europeias são ultra-numerosos (pois é preciso respeitar as quotas por nacionalidades) e, na sua grande maioria, não são precisamente uns forçados do trabalho. Não admira, visto que, em boa parte dos casos, não foram selecionadas em função de critérios de competência, mas sim porque são “afilhados” dos partidos políticos no poder como na oposição nos países de origem. Enquanto que os responsáveis das diversas instituições vivem globalmente em autonomia, fora de qualquer controlo dos cidadãos eleitores e, desde logo, impunemente, sem lhes prestarem quaisquer contas.
Boa parte dos principais altos responsáveis são aliás pessoas de somenos importância, escolhidos pelos chefes de Estado ou de governo dos países membros, de modo a que se mostrem perfeitamente servis e não ousem opor-se a que estes “padrinhos” tomem as decisões que muito bem lhes aprouver. Os exemplos atuais do presidente da Comissão Europeia e da alta representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros são duas perfeitas ilustrações da manifesta incompetência reinante nas altas esferas das instituições europeias.
Quanto aos parlamentares, os partidos designam antes do mais gente que querem afastar da vida política nacional para não continuarem a criticar, a atacar os líderes dos partidos o do governo. Gente que poderia continuar a constituir uma alternativa dentro do partido. Ou gente que é preciso compensar por serviços prestados ao partido. E a tentação em termos de retribuições, mordomias e demais alcavalas, como em termos até de turismo, é demasiado forte para que os escolhidos possam resistir. Os exemplos destas motivações são por demais conhecidos no que diz respeito a Portugal…
Numa perspetiva mais larga, muitos dos europeus convictos, muitos daqueles para quem a experiência da Europa não foi ou é apenas de natureza turística, estão porém desiludidos com a evolução da União Europeia. Uma união que passou a ser cada vez mais um simples mercado único entregue a uma dinâmica económica puramente liberal, marcada por um capitalismo desenfreado, que ignora os mais elementares princípios da justiça social e prefere evacuar o princípio do respeito pelo(s) Estado(s) de direito.
Que atitude adotar então em matéria de eleições para o Parlamento Europeu ? Votar, não votar ? E por quem votar ? No caso português, num país que foi durante tantos decénios privado de verdadeiras eleições, há qualquer coisa de chocante em preconizar agora de “votar com os pés”, não se apresentando sequer na mesa de voto. Se os votos em branco fossem tomados em conta na atribuição dos lugares no parlamento (deixando portanto boa parte dele vazio), isso constituiria então uma boa solução para, como preconizava José Saramago no seu Ensaio sobre a lucidez, mostrar claramente que se deixou de acreditar nesta União Europeia e que se experimenta um profundo desprezo pelos que a dirigem. Mas não é o caso.
Há pois que votar, por dever de cidadania. Sabendo porém que, qualquer que seja a escolha do eleitor, o seu voto será de pouca ou nenhuma importância nos destinos na União Europeia. E que, em matéria de Comissão Europeia, pouco distingue os candidatos das grandes “famílias políticas” para a presidência, o eleito, seja ele qual for, passando a dispor de uma margem de manobra muito limitada nas suas eventuais iniciativas (embora haja um grau de competência em matéria governamental claramente diferente entre os candidatos anunciados).
Daí que, no caso português, o voto só possa ter sentido se for formulado em termos nacionais, de política interna. Até porque os partidos que se apresentam a votos pouco se preocuparam em fazer propostas originais fortes para o futuro da União Europeia…

quarta-feira, 21 de maio de 2014

terça-feira, 20 de maio de 2014

Os lados trágicos da campanha


J.-M. Nobre-Correia
Há qualquer coisa de trágico na campanha atual para as eleições europeias de domingo. De triplamente trágico até.
O primeiro aspeto trágico é o que leva a constatar que as questões europeias são pura e simplesmente ignoradas, evacuadas, pelos diferentes partidos políticos. Que são afinal temas da vida nacional (e até mesmo quase apenas esses) que dão pretexto às declarações de uns e de outros. Como se não houvesse problemáticas próprias da União Europeia, que se encontra manifestamente em crise há uns dois decénios e da qual, quer se queira quer não, Portugal é um país membro. E como se não se assistisse a uma tremenda e inquietante derrapagem da atual União Europeia em relação ao projeto fundador e ao discurso encantatório dos eurocratas de Bruxelas e de Estrasburgo.
O segundo aspeto trágico é o que consiste em ver que o Partido Socialista não tem um discurso, uma análise sobre a União Europeia diferente dos partidos da direita governamental (reunidos na chamada Aliança Portugal, do PSD e do CDS). Que toda a sua campanha se construiu quase unicamente em torno da perspetiva de um futuro regresso ao governo nacional. Mas é verdade que os partidos socialistas, sociais-democratas (no sentido europeu da palavra) ou trabalhistas deixaram de ter um projeto político reformista no plano nacional e muito menos o têm no plano europeu. Deixando nomeadamente a Comissão Europeia funcionar em total autonomia em relação aos mais elementares princípios da democracia representativa dos cidadãos eleitores.
O terceiro aspeto trágico é o que obriga a constatar que o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português tomam o Partido Socialista como principal alvo dos seus ataques. O que é particularmente manifesto e chocante no caso do PCP. Só que, por este andar, incapaz de uma estratégia política realista e de uma indispensável inserção social, o BE corre o risco de se transformar ainda mais num grupúsculo de intelectuais universitários, sem capacidade de intervenção na política concreta, nacional ou local. Enquanto que, no que diz respeito ao PCP, uma pergunta essencial se impõe : contam os comunistas ficar encurralados num estatuto puramente tribunício ? Isto é : serem eternamente um partido de líderes que fazem belos discursos de tribuna, mas automarginalizados e totalmente incapazes de influência na vida governamental ? Continuará o partido inapto em assumir a mais pequena responsabilidade concreta a nível nacional ?
Caso seja respondido pela negativa a estas interrogações — até porque o objetivo teórico de qualquer partido é chegar ao poder —, como nada deixa prever que o PCP possa a breve trecho vir a ser eleitoralmente maioritário (sozinho ou em aliança com o BE, suponhamos), com quem é que o PCP (mais o BE, eventualmente) poderá vir a governar se não com o PS ?
Desta última pergunta se poderá tirar uma conclusão em forma interrogativa : não será partindo desta hipótese que o PCP (sozinho ou com o BE) poderá levar o PS a fazer as inevitáveis concessões em vista de um programa comum governamental (ou de simples maioria parlamentar) ? Obrigando desde logo o PS a adotar posições mais reformistas, mais progressistas do que as que têm sido as suas em governos de maioria absoluta ou mesmo de maioria relativa ?
É verdade que, para que uma política de esquerda progressista seja possível em Portugal, o Partido Socialista tem que abandonar o seu anticomunismo primário de origem. Mas o Partido Comunista tem também que libertar-se dos estigmas de uma clandestinidade (honrosa mas quase solitária) e assumir-se definitivamente como força não só parlamentar mas também governamental. Em nome da urgência que há neste país de um projeto operacional marcado pela inovação, a modernidade e a justiça social…

segunda-feira, 19 de maio de 2014

domingo, 18 de maio de 2014

Em devida perspetiva



J.-M. Nobre-Correia
Correio da Manhã : O sucesso do grande diário popular é de facto muito relativo, quando comparado a casos em que as condições de base são bem menos favoráveis…
Mesmo nos meios jornalísticos e mediáticos, o Correio da Manhã é considerado como um caso de sucesso. E não há dúvida que, a situação da imprensa em Portugal sendo o que é, o jornal fundado por Vítor Direito em 1979 foi o que, de todos quantos nasceram no pós-25 de Abril, mais solidamente se implantou. Só que, à escala da Europa, este sucesso é muito relativo.
A caraterística mais evidente do Correio da Manhã é a de ser o único diário com caraterísticas ditas populares a dominar o mercado num país latino. Em Espanha e em Itália são os diários ditos de referência que dominam em termos de difusão paga. Em França, o diário regional Ouest-France, de Rennes, domina com 733 078 exemplares vendidos, os nacionais de referência Le Figaro (317 225) e Le Monde (275 310) ocupando a segunda e a terceira posições. E mais : nestes três países não existem pura e simplesmente diários populares no sentido técnico da palavra.
Apesar deste estatuto singular, o Correio da Manhã está muito longe de atingir o nível de penetração de muitos dos seus congéneres europeus. Assim, por exemplo, o Kronen Zeitung, de Viena. A Áustria conta 8,46 milhões de habitantes (menos do que os 10,56 milhões em Portugal). Mas é um país que partilha a língua da Alemanha e da maioria da Suíça, para falar apenas destes países. O que quer dizer que qualquer pessoa residente na Áustria pode muito bem decidir não ler jornais austríacos, mas sim os dos países vizinhos.
Ora, apesar destes dados demográfico e linguístico (quando, em termos editoriais, Portugal tem a sorte de dispor de uma língua própria), um diário como Kronen Zeitung tem uma difusão paga de 809 990 exemplares, quando abundam os diários populares na Alemanha como na Suíça alemânica. Por seu lado, o Correio da Manhã fica muito modestamente pelos 111 297 exemplares. O que quer dizer que o seu potencial de desenvolvimento é teoricamente considerável. Mas isso suporia outra estratégia comercial e sobretudo uma clara e inovadora estratégia de regionalização…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 10 de maio de 2014, p. 43.