domingo, 29 de junho de 2014

Questão de vida ou de morte


J.-M. Nobre-Correia
Jornais : Em matéria de informação jornalística, a situação em Portugal é cada vez mais grave e mesmo desesperante, perante a incúria dos responsáveis…

A situação da informação jornalística em Portugal é bastante insatisfatória e até globalmente medíocre. E a dos média de informação jornalística é inacreditavelmente subdesenvolvida. Ultra-subdesenvolvida mesmo, para um país com esta demografia, este nível cultural (apesar de tudo) e este desenvolvimento económico (não obstante a crise). Só que, em matéria de média e mais particularmente de imprensa em papel, não há uma reflexão séria sobre o assunto…

Políticos e homens de negócios só pedem a deus-nosso-senhor que as coisas continuem assim. Quanto menos informação séria houver, melhor eles estão de saúde, mantendo os cidadãos na ignorância do que se passa nessas esferas do poder. E, felizes por frequentarem os bastidores essas esferas do poder, editores e diretores preferem nem sequer se interrogarem sobre as razões de um ultra-subdesenvolvimento que corre a passo acelerado para o abismo final.

Ora, há três questões essenciais sobre as quais se impõe um reflexão de fundo, a bem da democracia, do seu bom funcionamento e aprofundamento. A primeira diz respeito à coerência dos projetos editoriais. Formulando esta interrogação simples mas absolutamente essencial : quem diz o quê a quem ? Porque os jornais com equipas disformes que falam de tudo e de nada a públicos totalmente diferentes, não têm, nem nunca tiveram viabilidade.

A segunda interrogação consiste em saber se o média dispõe da equipa redatorial adequada. Em termos quantitativos e qualitativos. Se os seus membros dispõem de uma boa formação profissional (e o que por aí se faz nesta matéria não é nada famoso). Se partilham um mesmo projeto editorial. E se souberam adequar-se convenientemente à evolução tecnológica e editorial da cena mediática. Sem esquecer, terceira questão, uma séria interrogação sobre a comercialização do média que, no caso da imprensa, é inacreditavelmente insatisfatória. Mas haverá por aí alguém neste país com poder de decisão para lançar esta reflexão de vida ou de morte para a democracia ?…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 21 de junho de 2014, p. 45.

domingo, 22 de junho de 2014

Uma arma absoluta


J.-M. Nobre-Correia
Economia : Quando os média perdem “o sentido das responsabilidades”, os meios dirigentes dispõem de um instrumento todo poderoso, geralmente decisivo…

Os jornalistas não são necessariamente grandes democratas amadores de pluralismo. Geralmente, são sim amadores de personagens que fazem declarações estrondosas. E, no caso da televisão, adoram os que criam um clima de espetáculo e de polémica contundente. Pouco lhes importa, no plano político, que o que dizem esses personagens seja interessante, coerente, plausível. O que é preciso é “animar a malta” e fazer subir a parte de audiência da estação…

As televisões privadas espanholas estão assim a dar grande importância ao líder de Podemos, que obteve 7,97 % dos votos nas eleições europeias. Sucesso tanto maior e inesperado que este partido político foi constituído em março, dois meses e meio antes do escrutínio. Só que o governo de direita conservadora no poder não aprecia nada que Pablo Iglesias, o líder de Podemos, apareça tão frequentemente nos ecrãs, sobretudo na Cuatro e na La Sexta

Diversos dirigentes do Partido Popular fazem assim chegar ao primeiro ministro propostas para acabar com esta “benevolência” para com o “intruso”. Até porque estão habituados a que o sistema mediático pratique um pluralismo favorável aos “arco governamental”. Ou, na melhor das hipóteses, um pluralismo alargado aos pilares tradicionais do juancarlismo. Proposta de choque : reintroduzir a publicidade na pública Televisión Española (TVE).

Com tal iniciativa, as televisões privadas sofreriam grandes perdas. E há até quem pense que poderiam passar a ser deficitárias. Pelo que a manobra seria muito simples : alguém próximo do primeiro ministro diria aos dirigentes dos grupos proprietários (Mediaset e Atresmedia) que seria inevitável reintroduzir a publicidade na TVE. Dadas as dificuldades financeiras do país e a impossibilidade de continuar a fazer cortes nos sectores da saúde e da educação. Os dirigentes dos ditos grupos compreenderiam então que seria necessário afagar o governo e afastar os “intrusos”. Ou como a fragilidade económica dos média pode ser posta ao serviço dos que detém o poder…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 14 de junho de 2014.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Interrogações de um estrangeirado perplexo


J.-M. Nobre-Correia

Um após outro, os diários deste país (mas não só eles) vão desaparecendo. E Portugal é dos países europeus que contam com menos títulos. Para não falar já no facto que boa parte dos diários por aí publicados são claramente insuficientes em termos de cobertura dos diferentes aspetos da atualidade.
Uma após outra, as redações vão-se esvaziando. Quantitativamente e até qualitativamente. Porque, no entender dos editores, é preciso reduzir os custos. Equipas menos numerosas têm evidentemente custos mais baixos. Como têm custos mais baixos equipas mais jovens, contando com menos antiguidade. E juventude que quer dizer também, na maior parte dos casos, menos experiência, menos competência. E o que não é indiferente para os editores e diretores : maior maleabilidade, maior flexibilidade.
Uma crise que vem de longe
É por demais evidente que, desde há seis anos, a crise dos investimentos publicitários acentuou a crise da imprensa portuguesa. Acentuou mas não a desencadeou, porque de facto a crise vem de longe, de muito longe mesmo. Desde quando, nos tempos do salazarismo, pelo menos, a censura destruiu largamente a capacidade de aparecimento de verdadeiros editores e empresas de edição. Como destruiu largamente a prática de um autêntico jornalismo, no que diz respeito à procura da informação no terreno e à ponderada interpretação das componentes determinantes da atualidade. Enquanto que os bancos, tomando conta de quase todos os jornais diários e dos mais importantes semanários, destruíram o que restava ainda de iniciativa editorial privada no país.
O 25 de Abril constituiu evidentemente um marco fundamental da história dos média, dando nascimento a uma condição essencial do exercício das profissões de editor e de jornalista : a liberdade. Só que, a maneira como, durante longuíssimos anos, sucessivos governos e partidos políticos (sem exceção) abordaram a questão dos média e da informação, destruiu a quase totalidade do que existia por ocasião do levantamento militar [1]. E a destruição continuou durante muitíssimos anos ainda, porque os verdadeiros editores e gestores de jornais quase não existiam. E porque a grande maioria dos jornalistas vieram diretamente do militantismo político, primeiro, ou, agora, de demasiadas escolas superiores de todos os géneros e que muito raramente têm alguma coisa a ver com a formação jornalística.
Perante a situação trágica qua acaba de ser evocada (cada vez menos jornais em papel, redações cada vez menos numerosas e, por consequente, número de jornalistas no desemprego cada vez maior), há algo de surpreendente, de espantoso : a lânguida apatia que domina o sector ! E esta apatia reina particularmente no meio jornalístico. Sem que haja verdadeiramente explicações concretas, indiscutíveis (históricas, culturais, sociológicas), para tal situação.
Quando se vê o que se passa aqui ao lado, em Espanha, em França ou na Itália — países geográfica e culturalmente próximos, em que a situação da imprensa diária até se assemelha mais à de Portugal do que à dos países escandinavos, por exemplo —, a apatia portuguesa é incompreensível. O número de diários digitais, em linha, que foram criados por equipas de jornalistas nestes três países é enorme. Por vezes com equipas que contam mais de uma trintena de jornalistas, sem falar nos administrativos. Propondo por vezes diários gratuitos, vivendo da publicidade. Mais raramente diários por assinatura e sem publicidade, por vezes com várias dezenas de milhares de assinantes (mais de 90 mil no caso de Mediapart, em França, seis anos depois do seu lançamento) e algumas vezes com uma rentabilidade confirmada ano após ano (no caso de Mediapart, nos últimos três anos).
Em Portugal, assistimos a uma viragem histórica com o lançamento do Expresso Diário em 6 de maio e do Observador em 19 do mesmo mês. O primeiro ligado ao semanário Expresso e produzido pela sua equipa, sendo o segundo uma verdadeira iniciativa autónoma (“pure player”, dizem os anglófonos). Mas como é possível que se tenham esperado tantos anos antes que algo de verdadeiramente significativo nos planos editorial e jornalístico tenha acontecido ? Porquê este atraso de uns sete ou oito anos em relação às primeiras criações de jornais digitais autónomos em França, por exemplo, quando a diversidade de diários neste país é bem mais vasta do que em Portugal ?
Como explicar esta falta de iniciativa ?
Mas, para quem viveu dois terços da sua vida no estrangeiro, a principal interrogação continua a ser : como explicar esta falta de iniciativa da parte de tantos profissionais experientes que se encontram no desemprego ? Eliminados os custos importantes da produção técnica e da distribuição dos jornais impressos, o que impede que se constituam equipas coerentes de jornalistas, comungando de um mesmo projeto editorial, acompanhadas por administrativos experientes que frequentaram por vezes durante anos, e que estas equipas lancem vários jornais em linha ?
O leque de projetos possíveis é vasto, dada a paisagem mediática em desertificação avançada que é a portuguesa : diários generalistas ou especializados, com publicidade ou sem ela, gratuitos ou a pagamento, nacionais, regionalistas ou à escala da lusofonia,… Porquê então este amorfismo ? Preferirão os jornalistas portugueses o desemprego à perspetiva de se lançarem em iniciativas de que serão eles próprios responsáveis ?
Interrogações de um estrangeirado perplexo ? Ou abordagem não-depressiva, com um olhar diferente e razoavelmente positivo sobre a realidade mediática e jornalística portuguesa ?…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Razões que explicam a miséria », in Notas de Circunstância, n° 6, fevereiro de 2014 ;
J.-M. Nobre-Correia, « Um momento da história em perspetiva », in Notas de Circunstância, n° 8, abril de 2014.

domingo, 15 de junho de 2014

A incompreensão da História


J.-M. Nobre-Correia
Abdicação : Juan Carlos de Borbón decide retirar-se do poder, surpreendendo os espanhóis. E os diários madrilenos reagem como se nada tivesse mudado desde há cinquenta anos…

Foi tempo em que muitos diários tiravam várias edições ao longo do dia. Os editores queriam acompanhar a atualidade e propor aos leitores os seus últimos desenvolvimentos. Até porque os hábitos de aquisição dos jornais eram diversos : antes de ir para o trabalho, à hora de almoço, à saída do trabalho, antes de voltar a casa para jantar,… Fim dos anos 1960, princípios dos anos 1970, jornais havia na Europa do centro-norte que tiravam ainda sete edições diárias !

A multiplicação dos jornais nas rádios e nas televisões, nos anos 1960-70, veio fazer abrandar esta estratégia comercial. E o aparecimento das rádios e das televisões de informação contínua, a partir dos anos 1980, pôs-lhe fim, deixando compreender aos editores que era necessário repensar o posicionamento dos diários. A função social destes deixava de ser anunciar a atualidade, pelo menos no que dizia respeito aos grandes acontecimentos : era preciso agora ir mais longe na perspetivação, na interpretação, na tomada de posição.

Com a internet a partir do fim dos anos 1990, este necessário reposicionamento tornou-se mais flagrante, mais urgente. Os editores tinham que renunciar largamente a uma história secular e conceber os jornais de maneira totalmente nova e diversa. Em termos editoriais, mas também em termos comerciais. Mas a grande maioria dos editores continua a não perceber o que isto quer dizer…

A abdicação de Juan Carlos de Borbón, em Espanha, deu uma prova flagrante desta incapacidade em conceber os jornais de outro modo. A “Casa Real” anunciou-a por Twitter na segunda-feira, às 10h39. Quatro diários “nacionais” madrilenos decidiram fazer uma segunda edição nesse dia. El País anunciava “El Rey abdica”, El Mundo “El Rey abdica ‘porque es lo mejor para Espanã’”, o ABC “Juan Carlos I abdica em Felipe VI” e La Razón “Gracias , Don Juan Carlos”. Títulos de primeira página bem pouco imaginativos, sem mais valia, quando poucos terão sido os que tomaram conhecimento da notícia pelos jornais. Admirem-se depois…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 7 de junho de 2014, p. 44.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Um anacronismo absurdo


J.-M. Nobre-Correia
Os monárquicos em geral, e os monárquicos portugueses em particular, adoram contos de embalar com reis, rainhas, príncipes e princesas. E recusam ver o que há de escandaloso e absurdo em tais narrativas…
A demissão de Juan Carlos de Borbón tem posto em êxtase essas relíquias de “Ancien Régime” que são os monárquicos portugueses. Gente, por vezes inteligente e culta, que se põe a fazer considerações totalmente desprovidas de bom senso. Dizendo por exemplo que as monarquias são um modelo de estabilidade e moralidade, e as repúblicas se caraterizam pela instabilidade e a corrupção. Limitando por vezes tais afirmações às monarquias do norte e às repúblicas do sul da Europa. Demonstrando assim, no primeiro como no segundo casos, cegueira ou desonestidade.
Começando pela distinção enganadora entre o norte e o sul da Europa, esses monárquicos pseudo-subtis esquecem voluntariamente a diferença histórica entre ética protestante e ética católica. E, que se saiba as repúblicas finlandesa ou suíça não são menos éticas do que as monarquias do norte. São-no até bastante mais, porque a imoralidade, a hipocrisia, a ganância, a corrupção e a usurpação de privilégios das monarquias do norte como do sul têm sido postas em evidência nestes últimos decénios, para não irmos mais longe. Quando os sistema mediáticos dominantes praticamente por toda a Europa interiorizaram uma inacreditável deferência pelos meios dominantes e, claro está, por estes meios dominantes “pela graça de deus” que são os reis, grão-duques e demais príncipes.
Ora, a este clima de imoralidade, hipocrisia, ganância, corrupção e usurpação de privilégios, nenhuma monarquia europeia parece escapar. Nos casos britânico, neerlandês, belga, luxemburguês, espanhol ou nessa monarquia de opereta que é monegasca, tudo isso é por demais evidente. E para evocar apenas a atualidade, as guerras entre reis, rainhas e príncipes, que datam, pelo menos, desde a Segunda Guerra Mundial e atingem atualmente um elevado grau de comicidade na Bélgica. Com Albert de Saxe-Coboug, pai do atual rei, Philippe de Saxe-Cobourg, a protestar porque o Estado “só” lhe paga por ano 923 mil de euros de reforma (enquanto que Beatrix van Orange-Nassau, nos Países-Baixos, recebe 1,4 milhão de reforma não submetida a imposto !) !
Quanto à monarquia espanhola, nem vale a pena falar : a atualidade é por demais conhecida e significativa. Mas — para além mesmo das acusações atuais contra Elena de Borbón e o seu marido, Inaki Urdangarin — talvez convenha recordar aos monárquicos voluntariamente esquecidos que Juan Carlos de Borbón foi escolhido e educado pelo ditador Francisco Franco. Que matou o irmão Alfonso quando veio de férias ao Estoril, onde vivia a família (num “acidente” com uma arma de fogo segundo a polícia salazarista). Que prestou juramento ao Movimiento franquista ditatorial e fascizante. Que não foi por acaso que os seus pais e irmãs não assistiram à sua entronização. E que The New York Times avaliou a sua fortuna a nada menos de 1 800 milhões de euros, quando não tinha “praticamente nada” por alturas do falecimento de Franco !
Convém talvez recordar também todos os reis e demais famílias reais que colaboraram com o nazismo (na Itália ou na Bélgica) ou em golpes de Estado fascizantes (como na Grécia). Ou que, embora sejam “grandes trabalhadores dedicados” (como afirmam as propagandas oficiais), se descobre regularmente que andam em caçadas por África (caso de Juan Carlos de Borbón) ou de férias no sul de Espanha (caso de Baudouin de Saxe-Cobourg), no sul de França ou de Itália (no caso de Albert de Saxe-Cobourg, seu irmão e sucessor) : estes dois últimos, quase nunca se encontravam em Bruxelas quando se desencadeavam crises governamentais e tinham que apressadamente regressar à capital em avião expressamente enviado para o efeito !
Mas, para além de tudo o mais, os monárquicos portugueses dar-se-ão conta do ridículo de reis, grão-duques e príncipes vestidos como árvores de Natal, carregados de medalhas e de demais faixas, brincando aos oficiais militares das diferentes armas (segundo os dias, mesmo quando já não se aguentam nas pernas !) ? Do ridículo de ver crianças e adolescentes providos dos mais diversos títulos (infante, príncipe, duque,…) quando ainda nada fizeram e, muitas vezes, nada farão ? Do ridículo e escandaloso que é ver homens e mulheres acederem ao lugar de chefes de Estado só porque são o filho ou a filha primogénito do anterior monarca, seja qual for o seu grau de inteligência, cultura, competência ou apetência ?
Sejamos sérios : ser chefe de Estado pela simples razão que se é filho ou filho do chefe de Estado precedente é um anacronismo perfeitamente antidemocrático. E só quando os cidadãos de um país escolhem livremente quem deverá presidir aos destinos da nação se pode realmente falar de democracia…
Há algo de tremendamente chocante em ver aquele que foi designado arbitrariamente por um ditador sanguinário, que impôs uma guerra civil atroz e derrubou uma República democraticamente eleita, decidir agora que o seu filho será chefe de Estado. Um pouco de lucidez e de dignidade não fariam nada mal aos monárquicos portugueses, praticantes da cegueira, da má-fé e do absurdo…