domingo, 28 de setembro de 2014

Revolução e vassalização


J.-M. Nobre-Correia
Netflix : De média que reunia vastos públicos e contribuía para uma certa coesão social, a televisão passa a ser um sério fator de fragmentação…

Estes primeiros anos do terceiro milenário ficarão na história como os de uma gigantesca revolução no sector do média. Os de uma imprensa diária gratuita que desabrochou, floriu e largamente murchou em poucos anos. De jornais a pagamento que perderam vertiginosamente compradores nas edições em papel e alargaram consideravelmente as audiências nas edições digitais. De uma rádio cujos suportes de difusão e condições de escuta mudaram profundamente. E de uma televisão que está a dar passos largos na transformação radical da sua própria sociologia.

Esta semana, precisamente, o início de atividade de Netflix em seis novos países europeus marca uma etapa importante na paisagem audiovisual. Empresa estado-unidense que, em 1997, expedia DVDs aos assinantes e que passou a pô-los à disposição em fluxo contínuo quando a tecnologia da internet o permitiu. Os assinantes (que são hoje 35 milhões só nos EUA) passaram a poder aceder a um gigantesco arquivo de filmes e de séries televisivas.

A televisão com uma programação imposta pelo emissor perde assim terreno em favor de uma televisão a pedido, concebida pelo espectador, em termos de conteúdos como de horários. Uma personalização do consumo, dos centros de interesses, que não deixa de acentuar uma tomada de distância em relação ao viver juntos e à coesão social.

Mas Netflix acentuará ainda a dominação dos estúdios estado-unidenses na produção cinematográfica e televisiva proposta aos cidadãos europeus. Com uma agravante em países como a França onde as televisões são obrigadas a propor uma programação de origem europeia a 60 %, dos quais 40 % francesa. Mas também a contribuir com uma parte das receitas para a produção cinematográfica. Obrigações de que Netflix fica dispensada, tendo estabelecido a sede fiscal nos Países Baixos ! Ou quando uma União Europeia, de mero mercado comum, se fragiliza e vassaliza culturalmente… O que será ainda mais notório quando Netflix se instalar na Europa do sul, nomeadamente em Portugal, em 2015-2016…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 20 de setembro de 2014, p.xx.

domingo, 21 de setembro de 2014

O reflexo de uma personalidade


J.-M. Nobre-Correia
Formas de tratamento : No relacionamento com os entrevistados, a degradação da linguagem utilizada pelos jornalistas traduz a lenta agonia das identidades editoriais…

O fenómeno é chocante na imprensa. Mas é-o ainda mais em rádio e em televisão. Até porque o olho tem uma capacidade de “desnatagem” do discurso que o ouvido não tem. Mas também porque o fenómeno tomou claramente uma dimensão maior na oralidade do que no escrito. Dimensão que se acentuou nestes últimos decénios. A ponto de, num mesmo média, a situação ter passado a ser totalmente incoerente e até mesmo caótica.
É de caos que de facto se trata quando se observa a maneira como os jornalistas contactam com as pessoas, se dirigem a elas ou as entrevistam. Quando se ouvem no mesmo canal de rádio ou de televisão, numa emissão após outra, ou até mesmo numa sequência após outra da mesma emissão, serem adotadas formas de tratamento diferentes. Há o que têm direito apenas ao nome próprio. Ou ao nome próprio dotado de um prévio Senhor ou Dona. Ou ainda do nome próprio e do apelido, com ou sem títulos de civilidade. Ou mesmo providos de títulos académicos ou profissionais.
Assim numa instituição da imprensa portuguesa, o Expresso, entrevista-se um antigo presidente da República ou o atual presidente de um banco tratando-os por “você”, ou um cineasta tratando-o por “tu”. Ou na mesma “matinal” da Antena 1, passa-se de um “Cristina, você” a um “professor” tal, ou a um respeitoso “Senhora Dona” tal. Ou num telejornal da RTP 1 utiliza-se um o “João”, outro o “Senhor João”, um o “você” e outro até mesmo o “tu”. Quando o entrevistado por vezes tinha idade para ser pai ou avô do desenvolto jornalista…
Dir-se-á que tal situação é consequência da evolução da língua falada. Trata-se porém, antes do mais, da degradação da chamada “boa educação” no relacionamento social. E, no caso concreto do jornalismo, do abandono do que constitui o tom, o estilo próprio de um média. Isto, claro está, quando os média são dirigidos por gente que sabe o que quer dizer um projeto editorial. O que quer dizer um conceito jornalístico coerente, com uma personalidade forte, claramente distinta da dos concorrentes…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 13 de setembro de 2014, p. 42.

domingo, 14 de setembro de 2014

A rajada de vento que passa


J.-M. Nobre-Correia
Diários : Manifestamente, esta “rentrée” anuncia-se bastante agitada. Sê-lo-á suficientemente para fazer sair os jornais do triste marasmo em que se encontram ?…

Num país onde os diários são raros, quatro mudaram ou vão mudar de direção por estes dias. Uma rajada de vento sacode pois a imprensa escrita. E é tanto mais forte quando atinge três diários generalistas e um desportivo ditos “nacionais”. Ora, a imprensa portuguesa encontra-se num estado miserável, na cauda da Europa em termos de vendas, de penetração social. Situação de que urge sair antes de um possível colapso final.
Haverá quem se interrogue sobre a questão de saber se esta situação é fruto do jornalismo praticado ? Ou é este bastante insatisfatório porque as vendas são reduzidas e, por conseguinte, as redações não dispõem dos meios para praticar um jornalismo de qualidade ? Eterna história da galinha e do ovo… Só que neste caso, as iniciativas com vista a procurar sair desta situação de marasmo terão que vir antes do mais dos próprios jornais. Começando obrigatoriamente pelos aspetos editoriais.
Nesta matéria, a urgência das urgências é definir um público-alvo. Em consequência do qual há que conceber um projeto editorial adequado. Projeto que, hoje em dia, tem que ser construído segundo duas vertentes : a edição digital e a edição em papel. Estabelecendo a devida complementaridade entre elas. Mas acentuando a especificidade de cada uma.
Há depois que elaborar um livro de estilo (geralmente inexistente, ultrapassado ou ignorado). Porque cada jornal tem que ter a sua personalidade própria. Definindo claramente, por exemplo, a função da crónica (para evitar o umbigocentrismo e a fulanização), da entrevista (para não cair em conversas intermináveis e compinchistas), da reportagem (que deve relatar o que foi visto e ouvido, e não transformar-se em editorialismo de sabichão-novo), da análise (sólida, sintética, obra de autêntico especialista). Sem esquecer as essenciais políticas de titulação, de ilustração, de escrita e de hierarquização da informação. Depois, depois, há que rever a comercialização dos jornais, adaptando-a razoavelmente ao poder de compra dos cidadãos…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 6 de setembro de 2014, p. 42.