domingo, 30 de novembro de 2014

Qualificativos dispensáveis


J.-M. Nobre-Correia

Média : Na sua habitual página dominical, o provedor do diário Público transcreve integralmente a carta de um leitor não identificado (o autor deste bloco-notas), nenhuma explicação sendo no entanto dada às críticas formuladas…


"No melhor pano cai a nódoa", dirão alguns. Mas há "nódoas" que são dificilmente aceitáveis da parte de um jornal que se quer "de referência". Sobretudo se nessas "nódoas" sentimos relentos de teorias rácicas totalmente intoleráveis.
Assim, no Público datado de segunda-feira 24 pôde ler-se num dos subtítulos do título principal da primeira página que "João Araújo, o advogado de defesa goês do ex-primeiro-ministro, trabalha sozinho". E, da mesma maneira, pôde ler-se no texto da página 3, 8a e 9a linhas : "João Araújo — natural de Goa e agora advogado de José Sócrates".
Algum dia passaria pela cabeça de um jornalista escrever a propósito de outro qualquer advogado sediado em Lisboa : o advogado de defesa açoriano, minhoto ou alentejano do ex-primeiro-ministro ? E muito menos : o advogado de defesa cabo-verdiano, angolano ou brasileiro do ex-primeiro-ministro.
Que ideia chocante e perfeitamente intolerável é esta de ver os média desta pretensa nação que "deu novos mundos ao mundo" começarem a dizer que António Costa é de origem goesa e agora que João Araújo é goês ? Vão os média portugueses começar a evocar as origens geográficas, sociais, étnicas ou confessionais (e não sei que mais...) das pessoas evocadas, quando isso não tem nada, nadíssima, a ver com o assunto tratado ?
Estará o jornalismo em Portugal a resvalar preocupantemente para um segregacionismo em que os "portugueses de raiz" serão distinguidos dos outros ? Destes outros que precisamente escolheram ser portugueses, quando os tais "portugueses de raiz" nem sequer escolheram a nacionalidade que lhes atribuíram à nascença ? Sombrio e inquietante horizonte !
E já agora : dizer que João Araújo "trabalha sozinho" não é uma maneira inadmissivelmente hipócrita de insinuar que ele não faz parte dos "grandes escritórios" de advogados, daqueles que dominam a cena político-económico-judiciária e ser portanto um "pequeno advogado" de pouca envergadura ?
Em termo de escrita como de titulação, o Público de segunda-feira 24 deu provas infelizes de descuido editorial e de grande irresponsabilidade social.

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 30 de novembro de 2014, p. 53. Só a frase final de cumprimentos foi suprimida…

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A inconfessável conivência


J.-M. Nobre-Correia
Média : Ambições diversas da “classe judiciária” levam-na a praticar “fugas” em série para jornalistas “amigos”. Fazendo de “segredos de justiça” uma literatura que pouco tem a ver com o “jornalismo de investigação”…

Diz a teoria que, em democracia, coexistem três poderes : o legislativo, o judiciário e o executivo. Cada um deve ser autónomo em relação aos dois outros. Só esta “separação dos poderes” é de natureza a preservar o desejável bom funcionamento da democracia.
A esta teoria datando de há mais de dois séculos e meio, vem depois juntar-se outra que pretende existir um “quarto poder” : o “poder da imprensa”, designado hoje por “poder dos média”. “Poder” contestado até porque não instituído como tal nas estruturas de um Estado de direito. Havendo mesmo quem prefira chamar-lhe “contrapoder”.
Na realidade, nas democracias de pacotilha, o poder executivo domina claramente o poder legislativo e o poder judiciário. Nas democracias formais dos nossos dias, o poder executivo põe os partidos da maioria às suas ordens no parlamento, deixando-lhes diminuta margem de manobra e impondo-lhes votos favoráveis em toda e qualquer iniciativa governamental.
Novas e antigas alianças
A evolução da relação entre o poder judiciário e o poder executivo toma, quanto a ela, aspectos diferentes nestes últimos decénios. Tradicionalmente na dependência do poder executivo (em termos de nomeações, colocações e promoções), o poder judiciário tem procurado soltar-se das rédeas que o entravavam, apoiando-se nos média. Procurando tirar proveito da proliferação dos média, sobretudo a partir da desmonopolização dos sectores da rádio e de televisão, e mais recentemente das numerosíssimas, variadas e incontroladas iniciativas em linha. Procurando sobretudo tirar proveito da lógica da concorrência desenfreada entre média e entre jornalistas, também estes muitíssimo mais numerosos do que há uns 30-40 anos atrás.
Ora, nas democracias de pacotilha esta utilização dos média é tanto mais cómoda que estes não só não existem enquanto “quarto poder” como não existem enquanto “contrapoder”, dominados que são cada vez mais pelo poder económico. Sobretudo se, como no caso português, a fragilidade dos jornais (impressos, radiofónicos, televisivos ou em linha) faz que os meios humanos sejam geralmente muitíssimo limitados e, por conseguinte, seja extremamente reduzida a capacidade de pôr em prática um verdadeiro “jornalismo de investigação”.
Os meios judiciários passam assim a utilizar os média, alimentando-os com “fugas” discretas de elementos de informação da instrução dos “dossiês”. Atitude que se pode explicar teoricamente pela necessidade que os meios judiciários sentem em querer aumentar a própria margem de manobra, tornando públicos “dossiês” e impedindo deste modo que o poder executivo ou mesmo a hierarquia do poder judiciário (para não falar já nos mais diversos grupos de pressão) possam travar e até impedir o prosseguimento normal da instrução. Mas também, convém não esquecer, porque juízes, procuradores e demais pessoal judiciário querem pôr-se em evidência, em valor, enquanto “classe” ou, mais geralmente, enquanto personagens eminentes (ou que se pretendem tal) desta “classe”.
Ora, é por demais evidente que esta “classe” não vive num qualquer Olimpo, imune às vicissitudes terrenas, às opções ideológicas, aos pequenos rancores ou às grandes sedes de vingança. Sobretudo se conseguir apanhar nas suas redes um personagem que dispõe (ou dispôs) de um poder considerável e até acabou com alguns “chocantes privilégios” da dita “classe”. E ainda mais se ele se situar num campo teoricamente antagónico do conservadorismo que carateriza tradicionalmente boa parte da “classe judiciária”.
Só que, por vezes, a “classe” “perde os pedais”, perde o seu desejável autocontrole, e ultrapassa “os termos dos limites”. Montando ou dando indicações para que possa ser montada uma formidável operação mediática, de modo a que a detenção particularmente anómala do dito personagem seja devidamente coberta por jornais e televisões amigos. De modo a que estes possam preparar antecipadamente a “exclusividade”, com sobeja matéria para pôr rapidamente no papel ou no ecrã. Haja embora depois alguns desagradáveis percalços : a personalidade a deter não se apresenta no dia previsto mas só no seguinte à noite, o semanário privilegiado é obrigado a retardar a sua “edição especial” para dois dias depois [1] ; e embora o telejornal das 20h00 comece antes da hora normal, as “medidas de coação” falham o provavelmente desejado efeito do “direto” à hora de jantar de cidadãos sedentos de imagens e informações “espetaculares”.
Espetáculo e tirania mediática
Esta montagem da operação mediática deixa pensar que a “classe judiciária” não é afinal tão politicamente impune como quer parecer. Até porque a detenção tem lugar em plena movimentação em torno da convocatória de uma “candidatura cidadã” para as próximas eleições legislativas, da convenção de um partido da oposição radical e do congresso do principal partido de oposição do “arco da governação”. Isto é : em plena mobilização de formações que se situam entre o centro-esquerda e a esquerda radical, claramente opostas ao conservadorismo clássico da “classe judiciária”. Pretendendo embora não fazer política, o ódio de estimação da “classe” leva-a (involuntariamente ?, “bien malgré elle” ?) a escolher o seu campo, esquecendo (momentaneamente ?) tantos antigos e recentes “dossiês” ligados a gente no poder e adotando claramente atitudes e decisões bem mais radicais em comparação com as que adota com gente de quem, ao que tudo leva a crer, se sente mais próxima…
É claro que ninguém duvida que a “classe judiciária” na origem do “acontecimento do ano” conheça bem um princípio de base do jornalismo “light”, “very light”, praticado pela grande maioria dos média portugueses : um acontecimento forte escamoteia, faz esquecer os acontecimentos anteriores recentes. Os protagonistas dos escândalos em série dos amigos no poder poderão pois dormir descansados ! Até porque, estejamos certos, o poder executivo e os seus homens de mão nos partidos da coligação encarregar-se-ão de alimentar os média amigos. E, no estreito cenáculo mediático português, os média amigos são legião !…
Há realidades incómodas que convém sempre ter presentes : em Portugal como em boa parte dos outros países, mas mais em Portugal no que em muitos destes países, o pretenso “jornalismo de investigação” é de facto e antes do mais um “jornalismo de revelação”. Pela boa razão que é baseado largamente em inquéritos realizados por outros (meio judiciário, polícia…) e fruto de “fugas”, sem que os jornalistas se interroguem sobre a questão de saber o que motiva as fontes a tal generosidade, dando-lhes informações sensíveis, sujeitas a “segredo de justiça”.
Situações há em que as “fugas” são provocadas conscientemente, honestamente, de modo a impedir os entraves ao funcionamento da justiça, em nome do Estado de direito essencial a uma sociedade democrática. Mas é tempo que a hierarquia judiciária proceda a um inquérito aprofundado sobre a origem intempestiva e em rajada de “fugas” em torno do chamado “segredo de justiça”. Até porque, repercutidas pelos média, tomam muitas vezes aparências de “jornalismo de delação” e até mais precisamente de “jornalismo de denúncia”, em que o “presumido inocente” é executado pela guilhotina da tirania mediática e da “vox populi” antes mesmo de ser condenado…



[1] O dito semanário justifica esta « edição especial » afirmando perentoriamente que é “o único jornal que dispõe de informação (pormenorizada) sobre as conclusões da investigação feita ao ex-primeiro-ministro durante um ano”…




Uma versão abreviada deste texto foi publicada no diário Jornal de Notícias, Porto, 27 de novembro de 2014, p. 15.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Os parâmetros da nova equação


J.-M. Nobre-Correia
Média : O papel foi durante cinco séculos e meio o seu suporte tradicional. Pelo que a imprensa escrita aceitou mal a mutação para o digital. Sobretudo a local e regional cujas potencialidades são no entanto reais…

A imprensa escrita encontra-se num momento crucial da sua história. Há até quem se interrogue sobre a sua eventual sobrevivência. E sobretudo se, numa era de mundialização, a imprensa local e regional terá ainda futuro.
Mas, que mudou afinal nestes últimos dois decénios ? O papel deixou de ser o suporte único da imprensa escrita. Graças à internet e à digitalização, os jornais puderam deixar de ser impressos e de recorrer a complexas estruturas de distribuição. Paralelamente, ao texto e às imagens estáticas, passaram a poder propor sons e imagens animadas. E outra mutação fundamental : deixaram de ser “fechados” em dia fixo, a hora(s) fixa(s), para poderem realizar-se em tempo real, acompanhando os desenvolvimentos da atualidade.
Do papel para a internet
Num primeiro tempo, os jornais em papel procuraram ignorar a internet. Depois, passaram a pôr lá os mesmos textos ou apenas alguns deles, sem mais. Cometendo um erro estratégico com repercussões duradoiras e trágicas : o acesso aos conteúdos era gratuito. Queriam assim aumentar a audiência, de modo a aliciar publicitários e anunciantes. Mas fizeram perder valor ao conteúdo editorial…
A esta crise das receitas das vendas e das assinaturas, veio juntar-se a da publicidade. Porque muitos investimentos publicitários (e muito particularmente os “classificados”) foram transferidos para a internet. E, mais recentemente, assistiu-se a uma queda global destes investimentos como consequência da crise dos “subprimes”.
Evolução tecnológica e queda das receitas provocaram uma profunda crise da imprensa escrita, com o desaparecimento de muitos jornais em papel, por vezes prestigiosos e centenários. Crise também presente nos sectores da rádio e da televisão, mas particularmente notória na imprensa escrita.
A informação em tempo real não constituía uma novidade para a rádio e a televisão, capazes de praticá-la há largos anos. Mas constituía uma novidade absoluta para a imprensa, habituada às demoras da composição, da maquetagem, da impressão e da distribuição.
Graças à internet e ao digital, as fronteiras tradicionais entre média desapareceram, todos eles tendo agora a possibilidade de produzir textos, sons e imagens animadas. Mas também de propor aos internautas ligações para complementos de informação e de documentação. Ou de acompanhar a atualidade, as fronteiras da periodicidade de origem tendo igualmente desaparecido.
Todo e qualquer média deixou também de estar confrontado aos limites técnicos da difusão geográfica e passou a dispor teoricamente de leitores, ouvintes ou espectadores em todas as partes do mundo. As fronteiras geográficas desapareceram e, para além da barreira das línguas, qualquer internauta pode acompanhar a atualidade num país estrangeiro ao mesmo tempo que um cidadão deste mesmo país.
Na nova “aldeia planetária”
O mundo é agora uma “aldeia planetária”. Mas, paralelamente, os cidadãos sentem uma necessidade mais forte de ancoragem no seu meio imediato, no seu próprio “quintalzinho”. Pelo que os média locais e regionais têm resistido melhor do que os “nacionais” à mundialização da informação.
Porém, estes mesmos média locais e regionais compreenderam mais tarde do que os nacionais a urgência em lançar edições digitais. Até porque dispõem geralmente de menos meios financeiros para proceder a uma mutação que supõe equipas com competências diversificadas e, no caso da imprensa escrita, uma adequação a conteúdos áudio e vídeo.
Mas, com a expansão da internet, numerosas instituições e empresas passaram a utilizá-la para difundir os seus comunicados. E o leitor tomou consciência que muitas vezes os média locais ou regionais pouco mais propunham do que “comunicação”, sem tratamento jornalístico nem valor acrescentado.
Ora, os leitores só estão dispostos a pagar por jornais (em papel ou em digital) que lhes proponham conteúdos largamente inéditos, em termos de factualidade, perspetivação e análise. Com o devido rigor dos factos e a desejável estética da escrita e da ilustração. E assumindo a indispensável função democrática de contrapoder…


Texto publicado no semanário Fórum Covilhã, Covilhã, 25 de novembro de 2014, p. 7.