terça-feira, 27 de outubro de 2015

Outra viragem inadiável


J.-M. Nobre-Correia
Média : Que a esquerda venha a assumir ou não o governo da nação, a fase política que se anuncia supõe uma nova prática jornalística capaz de suster o augurado novo curso da sociedade portuguesa…

As peripécias que atravessam atualmente a vida política confirmam que estamos a viver um momento histórico. Ou pelo menos um momento de prováveis viragens históricas suscetíveis de desencadear recomposições da cena política nacional [1].
Mas, para além destas (quase) evidências de natureza sociopolítica, há no contexto atual outra evidência que, ela, salta também aos olhos. A de um jornalismo e de média de informação largamente dominados por gente com mentalidade militante, grande impreparação técnica e cultural, e enorme má-fé, que se trate de jornalistas ou de “comentadores”. Gente cuja ligação à direita é por demais evidente e jornalisticamente insuportável.
Por um jornalismo diferente
Tal constatação deveria porém levar a esquerda política e os jornalistas de esquerda a considerar que há uma urgente necessidade de dispor de média que pratiquem um jornalismo diferente. Um jornalismo com critérios de seleção dos factos de atualidade diferentes. Com critérios de hierarquização diferentes. Com formas de tratamento diferentes. Com preocupações de contextualização histórica, económica e sociocultural. Tomando a devida distância em relação aos factos e aos personagens. Conhecendo e praticando com rigor a língua portuguesa e o sentido preciso das palavras.
É que, nos média dominantes, o jornalismo praticado (e haverá quem prefira mesmo designá-lo por “jornaleirismo”, para marcar a diferença) é largamente descerebrado, inculto, obsequiador, acrítico. Preocupado angustiadamente com a salvaguarda do seu estatuto hierárquico no seio da redação ou mais simplesmente (e compreensivelmente) a defesa do seu posto de trabalho. Prática que, inevitavelmente, só pode ser a de um jornalismo às ordens, às ordens sobretudo dos senhores no poder (económico, político, social, cultural) e da ideologia dominante, fundamentalmente de direita e cada vez mais conservadora.
Para além disto, há uma preocupante “concentração” das funções de informar e de comentar. A primeira é reflexo da omnipresença da agência Lusa, devida ao facto que a grande maioria dos média não dispõe de meios financeiros que lhes permitam dispor dos serviços de outras agências de informação. A segunda é fruto de um grupelho de jornalistas, políticos e académicos constituído em clique de amigalhaços (sobretudo de Lisboa e um pouco do Porto) que assumem a função de “comentadores” em diversos média (imprensa, rádio e televisão) e até em matérias totalmente diferentes (política nacional, política internacional, economia, cultura, desporto,…), debitando as mesmas “verdades” sobranceiras e indiscutíveis.
Ora, a desejável mutação do jornalismo praticado em Portugal tem que vir necessariamente dos jornalistas eles mesmos. São eles, aqueles conscientemente insatisfeitos com a toada geral, que têm que tomar iniciativas de modo a favorecer o aparecimento de uma nova vaga. Até porque as novas tecnologias, e sobretudo a internet e o digital, permitem criações de média bem mais ligeiros do que outrora no que diz respeito às estruturas de funcionamento e aos custos.
Um enorme mistério
Há porém um enorme mistério na sociedade portuguesa : há cada vez mais jornalistas experimentados no desemprego e jornalistas acabados de sair das escolas mais diversas sem postos de trabalho, e, no entanto, as iniciativas nesta matéria são praticamente inexistentes (com a exceção do Observador, claramente marcado à direita de maneira assaz militante). Quando as iniciativas em Espanha, em França ou na Itália, por exemplo, são cada vez mais numerosas [2]. Dando por vezes a prioridade à informação bruta, puramente fatual. Outra vezes privilegiando as análises (caso de Slate.fr). Outra vezes ainda limitando-se a crónicas de jornalistas experimentados (como Entreleslignes.be) [3].
A viragem política histórica que se operará provavelmente em Portugal nos próximos tempos só poderá tornar-se realidade se a “classe política” de esquerda estiver à altura da nova situação, for capaz de assumi-la e conduzi-la a bom porto. Mas também se o “povo de esquerda” souber implicar-se no novo curso da história, suscitando e apoiando as indispensáveis mutações socioculturais e económicas. E para que estas duas condições venham a ser possíveis, é indispensável que o primeiro como o segundo atores possam dispor de uma informação de qualidade concebida segundo critérios fortemente diferentes daqueles que, hélas !, dominam a cena mediática portuguesa atual…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « As viragens prováveis », in Notas de Circunstância 2, 29 de setembro de 2015.
[2] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Interrogações de um estrangeirado perplexo », in Notas de Circunstância 2, 17 de junho de 2014.
[3] O novo Ponto3, lançado em 25 de outubro, corresponde um pouco a este terceiro tipo, reunindo (por enquanto ?) apenas três cronistas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Ensinamentos a não perder de vista


J.-M. Nobre-Correia
Política : Houve durante a campanha para as legislativas uma vaga de ataques ferozes que deixaram marcas na memória dos eleitores. E que conviria agora ultrapassar, se a esquerda quiser de facto construir alternativas viáveis…

Impossível dizer neste momento que coligação irá assumir o governo da nação nos próximos tempos. Mas o que parece evidente é que uma página nova da história contemporânea portuguesa foi aberta com o diálogo inaugurado entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. Um diálogo praticamente inexistente desde o “verão quente” de 1975.
O BE deu o primeiro sinal de abertura em relação ao PS ainda durante a campanha eleitoral. O PCP manifestou uma posição clara em relação ao PS logo depois de conhecidos os resultados das eleições. O PS, dececionado com estes resultados, abriu largamente o leque das alianças pós-eleitorais possíveis [1]. E o “povo de esquerda” manifestou repetidamente o seu regozijo com esta novidade da cena política nacional.
Uma amarga recordação
Nada impede porém, quando a memória não é curta, que este mesmo “povo de esquerda” tenha ficado com uma amarga recordação : a de uma esquerda que se digladiou aberta e irresponsavelmente durante a campanha eleitoral. Ou melhor : a de um BE e de um PCP que tomaram o PS como principal alvo dos seus ataques, das suas críticas acerbas. Situando a maior parte das vezes o PS na direita política parlamentar. Não tendo sequer a preocupação em distinguir a prática da direção do PS com o que a natureza autêntica de boa parte dos seus militantes e eleitores. O que faz que muitos nesse mesmo “povo de esquerda” tenham agora dúvidas sobre a lealdade das negociações em curso entre os três partidos, assim como sobre a possível viabilidade destas negociações.
Aconteça pois o que acontecer nos próximos tempos, haverá uma lição a tirar para os três partidos da esquerda portuguesa : saber escolher os alvos das críticas ferozes, dos duros ataques, não esquecendo que eles se devem situar prioritariamente no campo oposto. E saber também não hostilizar, não marginalizar os militantes e eleitores do PS, componentes naturais desse mesmo “povo de esquerda”.
Ora, nestes dias de negociações para a formação do governo, mas também de início da campanha para as eleições presidenciais, seria desejável que os candidatos originários da esquerda não esquecessem estes princípios. Tanto mais que há para já cinco candidatos vindos desta área, vários “técnicos especialistas” da matéria pretendendo que, na perspetiva de uma segunda volta, é bom ocupar todo o eleitorado próprio a cada especificidade da esquerda…
É possível que assim seja. Só que, uma vez mais, a esquerda põe assim em evidência as suas divisões, sobretudo perante uma direita unida atrás de um candidato único, ao qual os média deram irresponsavelmente popularidade durante tantos e tantos anos. E de um e outro candidatos de esquerda (ou das suas hostes) já se ouviram palavras de autojustificação que não foram especialmente simpáticas para com os outros candidatos do mesmo campo. Pelo que, caso venha a haver uma segunda volta, haverá inevitavelmente eleitores que se recordarão dos epítetos pouco agradáveis de que foi alcunhado o novo candidato único de esquerda.
A indispensável união
Em tempos de indispensável união, seja qual for a coligação que venha a assumir o governo da nação, esta divisão da esquerda é deplorável. E ainda mais deplorável quanto é certo que, pela primeira vez desde há quatro decénios, se abriu um horizonte novo. Se vier a ser governo, a esquerda terá que saber trabalhar junta, ultrapassando quezílias requentadas de capelas, historicamente anacrónicas. E se não vier a assumir o governo da nação, terá que se posicionar para se encontrar em situação de força aquando de novas eleições legislativas que poderão muito bem vir a ter lugar já em 2016. Até porque o “povo de esquerda” perdoará dificilmente ao PS, ao BE e ao PCP o prosseguimento de tão suicidária desunião…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Responsabilidades históricas inadiáveis », in Notas de Circunstância 2, 6 de outubro de 2015.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Cette jouissance éphémère…


J.-M. Nobre-Correia
Politique : Des amis belges demandent des explications au sujet de la situation politique portugaise au lendemain des élections législatives de dimanche. Les voici sous forme de clin d’œil en lettre privée…

Mes chers Amis belges,
juste un petit mot pour vous dire que les gens de gauche (vraiment de gauche) vivent actuellement au Portugal un sentiment de jouissance, certes une jouissance éphémère, mais jouissance tout de même…
En fait, pendant la campagne électorale, on avait vu le Bloc de Esquerda (Bloc de Gauche), clairement, et le PCP, timidement, faire des ouvertures au PS, auxquelles le PS n'a d'ailleurs jamais répondu ou donné le moindre signe positif.
La droite PSD-CDS étant largement minoritaire à l'Assemblée de la République (104 sur 230 députés, quoique les résultats des quatre sièges attribués aux Portugais résident à l'étranger ne soient pas encore connus. Le PSD n'a d'ailleurs que 86 face à un PS avec 85), ces signes d'ouverture sont devenus plus évident dès le soir des élections. Et encore plus dès lundi.
Hier, mercredi, une délégation du PS, le secrétaire général en tête, est allé au siège du PCP rencontrer une délégation de ce parti : je crois que cela n'est jamais arrivé (mais je n'en suis pas sûr).
Mais voilà qu'à la fin de la rencontre, le PCP vient dire qu'il est prêt à soutenir un gouvernement du PS pour s'opposer à un nouveau gouvernement de droite PSD-CDS. Mais aussi qu'ils seraient également prêts à entrer au gouvernement !
Dès lors, tout de suite après, les grands médias, qui sont tous de droite, ont déclenché la grosse artillerie. Avec des politiques de droite et des "commentateurs" qui sont très largement de droite ...à manifester leur désarroi ! À alerter pour un nouveau PREC (Procès révolutionnaire en cours, comme disait et dit toujours la droite au sujet des événements de 1974-75) !...
La rencontre du PS avec le BE aurait dû avoir lieu aujourd'hui. Mais le BE a demandé à ce qu'elle ait lieu lundi. Parce qu'ils veulent savoir d'abord ce que donnera la rencontre du PS avec le PSD-CDS (ceux-ci ayant déjà signé un accord de gouvernement, ...alors qu'ils sont largement minoritaires !) ? Ou bien parce qu'ils veulent mieux préparer "techniquement" la rencontre, comme ils disent ?…
Il y a bien des motifs pour être sceptiques au sujet de la possible constitution d'un gouvernement PS-BE-PCP (121 députés sur les 226 actuellement connus), ne fut-ce que parce qu'il y a à l'intérieur du PS un courant clairement favorable à une alliance avec la droite. Mais, pour le moment, on prend son pied en lisant et écoutant les réactions de la droite, et surtout en voyant la tête des politiques, journalistes et "commentateurs" de droite à la télé !…
On prend d'autant plus son pied que le président de la République (un homme du PSD sans aucune envergure intellectuelle, culturelle et politique), après des décisions désastreuses tout au son de son mandat, a chargé lundi soir l'actuel premier ministre du PSD de former un gouvernement ...sans s'entretenir au préalable tous les partis présents au parlement, comme le prescrit la Constitution ! Après quoi, toujours mardi soir, il a fait un discours qui était un vrai programme de gouvernement clairement inacceptable pour la gauche, excluant de fait BE et PCP...
Bon, bon, vous me direz que les Portugais de gauche prennent leur pied comme ils peuvent. C'est vrai. Mais c'est toujours bon à prendre. Bien que ce soit une jouissance éphémère…
Je vous embrasse.