terça-feira, 30 de agosto de 2016

A informação a que temos direito...

J.-M. Nobre-Correia
Média : De uma falsa notícia mais um desmentido resultam duas notícias, dizia o diretor do maior diário francês do após Segunda Guerra Mundial. É preciso vender audiência e não credibilidade ! E estamos cada vez mais assim…

A crise do jornalismo português é manifesta. E sucedem-se os sinais de uma grave crise no que diz respeito à credibilidade da informação proposta aos leitores, ouvintes ou espectadores. É a entrevista do líder da oposição que é corrigida duas semanas depois pelo jornal que a publicou. É o desmentido das declarações que teriam sido feitas pelo antigo presidente da República em reunião do Conselho de Estado. E é agora, ao nível do “fait divers”, as sucessivas morte, morte cerebral apenas, situação médica muito grave e morte finalmente de um jovem !…
Para quem observa o mundo dos média e da informação, a constatação é clara : o jornalismo português vive largamente à base de comunicados que emanam de meios “produtores de informação”. Mas também de confidências segredadas generosamente nos ouvidos de jornalistas privilegiados. O que, em si, não são dois males a rejeitar absolutamente. Só que os comunicados são sempre concebidos de modo a propor uma imagem positiva de quem os elaborou. E as confidências têm quase sempre por função denegrir um concorrente da fonte ou pôr esta em evidente valor nos média.
Tais comunicados e confidências deveriam pois limitar-se a constituir simples alertas para as redações ou para um ou outro jornalista em particular. A partir daí, deveria absolutamente começar um trabalho de verificação dos elementos que lhes foram avançados. Verificar antes do mais a factualidade, a exatidão desses elementos. Procurar outras fontes de informação, atores, testemunhas ou conhecedores dos acontecimentos, pessoas concernidas pelos acontecimentos ou conhecedoras do contexto em que se desenrolaram estes acontecimentos. O que supõe falar com diversas pessoas, confrontar dados, documentar-se devidamente. Ora, manifestamente, estes trâmites essenciais deixaram a maior parte das vezes de ser realizados.
Médias e jornalistas baseiam-se assim cada vez mais exclusivamente nos comunicados (escritos, sonoros ou vídeo) da polícia, dos bombeiros, dos partidos, dos sindicatos, das empresas, das instituições, dos bancos, dos clubes desportivos, dos organizadores de manifestações culturais,… Sem verificarem os dados que figuram nesses comunicados. Sem procurar ir mais longe e enriquecer a informação com outros dados factuais e interpretativos originais que possam constituir uma mais valia.
As redações dos média portugueses (como aliás a maioria das redações no estrangeiro) dispõem de cada vez menos recursos financeiros e humanos. O que favorece um certo imobilismo, uma certa inatividade. Vai-se cada vez menos para o terreno em procura de novos elementos de informação. Procura-se cada vez menos encontrar diversas pessoas e multiplicar possíveis fontes de informação. Recorre-se cada vez menos a correspondentes locais e/ou especializados, que deixaram largamente de existir.
No caso português, acrescente-se a estes elementos de base insatisfatórios, uma forte relação de proximidade entre o pequeno meio jornalístico nacional e o dos “produtores de informação”. Quando o meio mediático é ele mesmo muito circunscrito, sendo a verdadeira concorrência manifestamente limitada e o autêntico pluralismo francamente reduzido. E quando até, no fim de contas, os profissionais destes meios fazem largamente parte de um microcosmos bastante incestuoso, frequentador dos mesmos bares ou restaurantes, dos mesmos espaços de lazer, dos mesmos amigos(as), companheiros(as) e namorados(as)…
A crise do jornalismo português é manifesta. E nada deixa prever que a situação venha a melhorar. Antes pelo contrário : teremos cada vez mais direito a uma informação instrumentalizada, caraterizada pela cruel falta de rigor dos factos e pela não menos cruel carência de valor acrescentado da interpretação. Até porque, no fim de contas, a ausência de uma informação de qualidade convém bastante bem aos meios dirigentes políticos e económicos do país…

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O outro pilar da repressão

J.-M. Nobre-Correia *

Como a Pide, a Censura zelava pela imagem do salazarismo e pelo cariz ordeiro dos portugueses …

Há ideias de livros interessantes. E há ideias de reedições que também o são. Só que, depois, lido o livro, descobrem-se lados insatisfatórios da primeira edição. Como se constatam aspetos muitos criticáveis da reedição…
Vir a lume em 1979 com um livro sobre a censura era uma ideia interessante e até mesmo essencial. Tanto mais quanto é certo que o dito livro era largamente constituído pela retranscrição de “telegramas telefonados da Comissão de Exame Prévio do Porto” (selecionados entre 5/1/1967 e 24/4/1974) e de “circulares dos Correios e Telecomunicações de Portugal sobre livros e revistas proibidos de circular”. E nada melhor para pôr em evidência o lado autoritário, inacreditável e por vezes até ridículo das decisões que provocavam um verdadeiro sufocamento da prática jornalística durante o salazarismo.
Quase quarenta anos depois, reeditar Os Segredos da Censura está longe de ser desprovido de pertinência. Dizem-se e escrevem-se por aí tantas barbaridades sobre o que foi o Portugal salazarista e sobre a jornalismo praticado então, que nunca é demais lembrar o que foi um país e um jornalismo privados de liberdade. Não impede que se tenham de lamentar diversos lados perfeitamente insuficientes da edição original e ainda mais desta segunda edição.
Primeiro que tudo há que lamentar a quase total ausência de explicitações sobre os acontecimentos a que fazem referência as decisões da Censura (com oito brevíssimas exceções em rodapé a propósito dos “telegramas” e nenhuma sobre as “circulares”). Quando, 42 anos depois, boa parte da população portuguesa usufrui o privilégio de não ter vivido sob o salazarismo, era absolutamente indispensável indicar os acontecimentos a que se referiam os “telegramas” ou as “circulares” e contextualizá-los de modo a que os leitores pudessem compreender o sentido real da intervenção da Censura.
Por outro lado, é lamentável que erros que figuram na primeira edição não tenham sido corrigidos na reedição, 37 anos depois. Como por exemplo : não escrever que “Domenach” (sem nome próprio) foi “o fundador-director da revista católica Esprit” (p. 16), quando Jean-Marie Domenach tinha dez anos quando a revista Esprit foi lançada por Emmanuel Mounier. Ou fazer referência a “Jaques Schreiber, director de L’Express” (p. 20), quando o fundador do magazine se chamava Jean-Jacques Servan-Schreiber.
A estas insuficiências vem juntar-se uma “introdução” de César Príncipe que peca por um tom ostensivamente ideológico e militante, onde não faltam o “grande capital”, a “luta de classes” e as “mafias patronais” (p. 23). Sem uma real preocupação histórica, sociológica e política, de simples jornalismo de qualidade, para pôr em evidência os grandes princípios de ação da Censura (apesar das breves linhas da p. 24). E, por conseguinte, sem explicitar o modelo de sociedade que a Censura queria propor aos leitores. E não é o prefácio de quatro páginas de Francisco Duarte Mangas, que constitui a única novidade desta reedição, que acrescenta o que quer que seja nessa perspetiva.
Vale a pena, no entanto, ler os “telegramas” e as “circulares” transcritas em Os Segredos da Censura. E ver como a Censura tinha antes do mais como preocupação que os média (e mais concretamente os jornais) propusessem do país a imagem de uma sociedade onde reinava a serenidade. Onde “nem uma agulha bulia na quieta melancolia” do regime salazarista. Onde não havia oposições, nem manifestações, nem contestações, nem greves, nem presos políticos, nem guerra nas colónias, nem mesmo demissões no interior das estruturas do regime, nem sequer acidentes ou mortes com pessoas ligadas ao regime : a nave do salazarismo deslizava serenamente, em águas tranquilas, em “defesa de interesses superiores da Nação” (Salazar dixit) !…


César Príncipe
Os SEGREDOS DA CENSURA
Edições Afrontamento, 140 pp, 12,00 euros


* Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles



Texto publicado no quinzenário JL Jornal de Letras, Lisboa, 17 de agosto de 2016, pp. 26-27.