domingo, 30 de outubro de 2016

Ousar estratégias que se impõem…

J.-M. Nobre-Correia
Para o mediólogo, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, há que dar à agência Lusa uma nova e desejável ambição

Depois ter vivido quatro anos em Lisboa, onde casou, Charles-Louis Havas, regressou a França e anos depois, em 1835, fundou a primeira agência de informação da história : a atual Agence France Presse. Outras apareceram depois ao longo do século XIX na Europa e nos Estados Unidos. E hoje a grande maioria dos países dispõem no mínimo de uma agência nacional.
O universo das agências de informação é extremamente diversificado : entre a agência mundial e a local, entre a de informação geral e a especializada, entre a plurimédia e a monomédia. No caso das agências nacionais de informação geral, há países demograficamente comparáveis que fazem opções diferentes : o caso de Belga que, com apenas 100 jornalistas, produz um serviço em francês e outro em neerlandês, e não conta nenhuma delegação no estrangeiro ; e o caso de Lusa, com 280 jornalistas e delegações em 24 países estrangeiros.
Há porém diferenças fundamentais de estatuto destas duas agências. Se os principais média belgas têm condições financeiras que lhes permitem assinar agências estrangeiras que propõem serviços em francês ou em neerlandês, o mesmo não acontece com a grande maioria dos média portugueses. E a presença histórica da Bélgica no mundo é suficientemente recente e limitada para que no resto do mundo se esteja à espera de uma informação com essa proveniência, quando a presença histórico-cultural de Portugal, da língua portuguesa e de portugueses no mundo é considerável.
A necessidade de uma grande agência de informação em língua portuguesa salta pois aos olhos de qualquer conhecedor do mundo dos média. A agência Lusa sofre porém de patologias muito incapacitantes : o Estado como acionista maioritário (o que é de natureza a facilitar instrumentalizações por partidos no poder) ; uma reduzidíssima presença de média no seu capital (só Global Média e Impresa têm presença significativa) ; total ausência de clientes não-média ; acionistas com origem apenas no território nacional.
A inserção geopolítica da Lusa é porém de natureza a que possa vir a ser a grande agência em língua portuguesa. Do momento em que saiba fazer entrar no seu capital uma sociedade representativa dos média regionais portugueses, uma outra dos meios empresariais, uma terceira dos interesses dos diferentes países lusófonos. Caso necessário, esta última poderia mesmo resultar de sociedades representativas, por exemplo, de diferentes regiões do mundo.
Outra etapa de desenvolvimento é concebível : a entrada no seu capital das transnacionais espanhola, Efe, e italiana, ANSA, agências de países cuja presença migratória e cultural no mundo tem caraterísticas em muitos aspetos comparáveis às de Portugal. Desta conjunção do mundo lusófono e de dois grandes países latinos poderia surgir uma segunda grande agência mundial europeia ao lado da francesa AFP, em face das estado-unidenses AP e Reuters.
Quando tudo no mundo dos média e da informação evolui a uma velocidade vertiginosa, decisões há que têm que ser tomadas a tempo, se não quisermos ser cilindrados por uma mundialização frenética e devorante… E não é reduzindo a indemnização compensatória do Estado que a Lusa poderá ter uma salutar ambição…

Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 29 de outubro de 2016, p. 34, com duas ligeiras supressões e um antetítulo/subtítulo diferente.

domingo, 16 de outubro de 2016

Da quieta melancolia à morte lenta…

J.-M. Nobre-Correia

A informação geral impressa vai pouco a pouco definhando. Perante a indiferença do mundo político…

Na outrora chamada Europa ocidental, Portugal é o país onde se leem menos jornais. E onde são publicados menos jornais diários, tendo em conta a superfície e a demografia do país. O pós-25 de Abril fez desaparecer a maioria dos diários de informação geral ditos “nacionais” de Lisboa e do Porto. Mas a crise da imprensa em Portugal é manifestamente grave desde há decénios. Nela se conjugaram erosão consequência da proliferação de rádios, televisões e média em linha com o velho descrédito da informação jornalística e a tradicional iliteracia. Veio depois juntar-se-lhes a mais recente crise dos investimentos publicitários e do poder de compra dos cidadãos, dando uma machadada abaladora ao sector.
Porém, parlamentos e governos sucessivos têm preferido ignorar tal situação. Até porque desde que os média escaparam à alçada do Estado, o mundo político prefere não afrontá-los, essenciais que são para proporem aos cidadãos uma imagem indispensável em democracia eletiva. Mas também por manifesto desinteresse do mundo político pelo bom funcionamento da democracia representativa, para a qual a qualidade da informação é todavia um elemento contributivo essencial.
Nestes novos tempos de maioria parlamentar das esquerdas, esperava-se que parlamento e governo tomassem iniciativas determinantes na matéria. Um ano depois, nem uma agulha buliu na quieta melancolia do sector !…


 Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 16 de outubro de 2016.

sábado, 15 de outubro de 2016

Por uma verdadeira autoridade

J.-M. Nobre-Correia

Da necessidade de uma reformulação da ERC no que se refere aos seus membros e às suas competências…

O mandato dos atuais membros do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) chega ao fim. E a Assembleia da República vai ter que proceder à eleição de quatro dos cinco membros, sendo o quinto designado por cooptação.
O balanço de cinco anos de atividade do atual Conselho Regulador é manifestamente insatisfatório. Até porque esteve demasiado ausente, inerte, silencioso, em situações mediática e jornalisticamente criticáveis e até mesmo intoleráveis. Pelo que conviria que a nova maioria parlamentar tome a iniciativa de eleger novos membros notoriamente competentes e com a coragem indispensável para tomar decisões que se impõem.
Porém, antes desta eleição, há que lamentar que a nova maioria parlamentar não tenha tomado a iniciativa de reformular e reforçar as competências de uma nova ERC. Até porque há uma necessidade urgente de pôr cobro à desregulação das estruturas e da propriedade do sector mediático. E regulamentar de modo a favorecer um verdadeiro pluralismo em matéria de conteúdos e de informação…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 15 de outubro de 2016.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Outra abordagem da atualidade


J.-M. Nobre-Correia


Para que novos tempos políticos e sociais sejam viáveis, é essencial uma nova conceção da informação

Nenhum poder político pode realizar obra duradoira sem média de informação que lhe sejam globalmente favoráveis. E as probabilidades serão ainda mais escassas se o sistema mediático lhe for notoriamente hostil. O que é o caso quando o poder político se quer norteado por princípios de justiça social e os média são largamente orientados por uma ideologia conservadora pretensamente neoliberal…
Não quer isto dizer que um poder político progressista precise de uma informação “oficiosa” e muito menos às ordens ! Mas os cidadãos têm que dispor de uma informação realmente pluralista, concebida de modo diferente do que era habitual. Fruto de uma seleção judiciosa de factos socialmente significativos que ocorreram. De uma hierarquização que dê prioridade à incidência desses factos sobre a vida quotidiana dos cidadãos. De uma tratamento jornalístico capaz de factualidade, perspetivação e interpretação de qualidade dos acontecimentos.
Ora, em Portugal, os média dominantes propõem-nos sobretudo futilidade e mediocridade. Há pois que conceber novas iniciativas e novos modos de proceder, para que os novos tempos políticos e sociais sejam realmente viáveis…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 14 de outubro de 2016.