domingo, 5 de fevereiro de 2017

Esta ortografia sem rei nem roque

J.-M. Nobre-Correia
Sociedade / Política : Vinte e seis anos depois, a Academia das Ciências acorda de uma longa letargia e faz “sugestões para o aperfeiçoamento” de um acordo. Mas previne que o processo “pode ser moroso” : valha-nos o deus Tot !…

Esta história do Acordo Ortográfico é uma triste ilustração do funcionamento da sociedade portuguesa. Ou melhor : a história de um “acordo ortográfico” que data de 1990, que é posto em aplicação em 2011, e que agora, 26 ou 6 anos depois, segundo os cálculos, é objecto de “sugestões para o aperfeiçoamento do acordo ortográfico da língua portuguesa”. E isto por parte de uma Academia das Ciências de Lisboa que deve ter andado ocupadíssima estes anos todos (sem que os miseráveis cidadãos de base se tenham dado conta disso) e que agora acorda e vem relançar a discussão. Uma história miserável, profundamente miserável !…
Se não vejamos. Vive um cidadão português há quase 45 anos no estrangeiro, num país onde a sua vida social e a sua actividade profissional se desenrolam sobretudo noutra língua. Mas o dito cidadão escreve também semanalmente na imprensa portuguesa dita “nacional”. Um dia, o diário em que colabora passa a adoptar o “acordo ortográfico”. E o cidadão português, preocupado, rodeia-se de documentos e nomeadamente de dois programas informáticos para procurar assumir a nova situação.
O cidadão português estrangeirado bem se dá conta que há decisões estranhas na nova ortografia, nomeadamente em matéria de acentos e de letras mudas. Coisas elementares como “por” e “pôr” ou “para” e “pára”, dois exemplos apenas do primeiro caso, são estranhíssimas. E depois há letras ditas mudas que, na maneira como ele as pronuncia, não são nada mudas : “sector” e “espectador”, por exemplo.
Mais de 45 anos depois, o estrangeirado torna-se retornado e passa a residir em Portugal. E descobre de chofre que, neste tal país à beira mar plantado, cada um faz o que quer. Que as decisões tomadas ao mais alto nível não são para aplicar, não são pura e simplesmente aplicadas. E irrita-se ao descobrir nos jornais que decidiram aplicar o acordo, uns tantos ou quantos pedantes, de preferência uns autoproclamados intelectuais, porem no fim dos seus textos que não aderem ao acordo ortográfico e que escrevem segundo a antiga ortografia. E até há mesmo um que põe isso no final dos seus próprios textos publicados no jornal de que é director !
É como a história dos táxis : aqui há muitos, muitos anos, foi decidido oficialmente que deveriam ser pintados a preto e verde, clara maneira de os identificar à distância. Depois, longos anos depois, foi decidido também oficialmente que deveriam passar a ser pintados numa cor creme. Mas os portuguesinhos são profundamente individualistas, egocêntricos e algo anarcas : longas dezenas de anos depois encontramos táxis pintados à maneira mais antiga e à maneira mais recente. Pena é que os pretos e verdes não inscrevam nas portas : “decorado com a antiga pintura”. Seria de um chique formidável !…
Vem agora pois a Academia das Ciências de Lisboa, acordada de uma longuíssima letargia durante a qual pouco ou nada se ouviu falar dela, a fazer “sugestões para o aperfeiçoamento do acordo ortográfico da língua portuguesa”, 26 anos depois ou 6 anos depois ! Mas o seu presidente anuncia também desde já que o processo de revisão do acordo ortográfico “pode ser moroso” ! Para quê pressas ? Ao que parece, uma Academia só pode dar os lentíssimos passinhos que convêm à sua provecta idade !…
Pobres miúdos que aprendem actualmente a escrever português nas escolas ! Pobre professores que não saberão a partir de agora para que lado se virar e como ensinar a gramática da língua portuguesa ! Pobres editores de livros que depois de ter reeditado obras antigas com a nova ortografia [1], vão ter eventualmente que reeditá-las nos próximos meses ou anos com a nova novíssima ortografia ! Pobres de nós todos que andamos há seis anos a escrever segundo as decisões legais tomadas na matéria : vamos ter agora que esperar não se sabe quanto tempo (quiçá : quantos anos) para ficarmos fixados sobre o assunto…
Que há responsabilidades dos que fizeram sucessivamente parte do “arco da governação” durante estes 26 anos e até mesmo já antes do acordo de 1990, é a evidência mesmo. Mas que a Academia de Ciências de Lisboa deveria ser chamada à pedra e não andar a sacudir levianamente a água do seu capote, seria obra de salubridade democrática. Até porque se os seus 237 anos de idade a impedem de assumir a utilidade pública desejável e a salutar operacionalidade adequada a estes tempos do século XXI, então que se proceda rapidamente a uma reforma de fundo da sua missão e das suas estruturas de funcionamento.
No fim de contas, esta história do Acordo Ortográfico é uma triste ilustração da incapacidade recorrente da sociedade portuguesa em dotar-se de regras reflectidas, ponderadas, consistentes e de, em seguida, aplicá-las efectiva e universalmente. E nisto, as grandes instituições como a Academia das Ciências de Lisboa são altamente responsáveis e manifestamente culpáveis. Mas como ninguém lhes pede contas, continuam a viver numa deliciosa e permanente impunidade !…



[1] Nem sempre estes editores têm o cuidado de rever o novo texto proposto pelo programa informático que utilizaram para adaptar a ortografia. Assim a recente reedição de Alexandre Herculano, História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal, tomo I, Lisboa, Bertrand, 2017, 228 p. (col. 11-17, n° 370). Entre muitas deficiências do novo texto, encontramos por exemplo na p. 175 um “Henrique viu de Inglaterra” em vez de um Henrique VIII de Inglaterra !…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 4 de fevereiro de 2017.

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