domingo, 30 de julho de 2017

Da integração à comunitarização

J.-M. Nobre-Correia
Médias : Em cinquenta anos de tempo, operou-se uma evolução absolutamente revolucionária nos processos de informação, com curiosas repercussões no seio das populações e-imigrantes…

Em meados dos anos 1960, quando um emigrante chegava ao país de destino, dava entrada num meio social onde conhecia velhos amigos, alguns vagos conhecidos ou até mesmo ninguém…
Para além deste pequeno círculo de antigos ou recém conhecidos, o emigrante sentia uma maior ou menor necessidade em estabelecer novos contactos no seu novo meio social, mas também em manter em maior ou menor grau contactos com os que tinham ficado no país de origem. E o grau de necessidade dependia, é claro, da sua própria personalidade, da sua própria sensibilidade.
Meios de comunicação lentos ou caríssimos
Num primeiro tempo, os contactos com o novo país eram geralmente difíceis. Porque o desconhecimento ou o fraco conhecimento da língua dificultavam o acesso às pessoas e aos média. Mas também porque, no caso da emigração portuguesa, a miserável ou débil condição financeira não facilitava estes contactos, nomeadamente no que dizia respeito à imprensa e à televisão.
Quanto aos contactos com os que ficaram no país, só o correio postal praticamente os permitia, embora cartas e postais levassem dias a chegar ao destino. E, quando a Pide suspeitava que expedidores ou destinatários tivessem tendências políticas “inaceitáveis”, as ditas cartas e os ditos postais nem sequer chegavam ao destinatário. Enquanto que o conteúdo, em matéria de escritos ou de fotografias, ia contribuir para os dossiês acusatórios da dita Pide, a utilizar na devida altura…
Para além do correio postal, o telefone era raro e caríssimo. Tinha que se ir aos correios, pedir um número em Portugal, esperar um tempo por vezes infinito, prestar atenção ao que se dizia (pois a Pide estava à escuta) e pagar uma pequena fortuna ...para quem era emigrante com magros recursos financeiros, como era geralmente o caso !
Ainda quanto ao país de origem, os jornais chegavam pouco e tardiamente, e as assinaturas eram caras. As rádios portuguesas eram extremamente difíceis de captar e apenas era possível fazê-lo em ondas curtas, geralmente em más condições sonoras. Pelo que havia então que voltar-se eventualmente para as emissões em português de diferentes rádios públicas europeias.
É claro que, a acrescentar a tudo isto, havia a imprensa militante e as rádios de oposição ao regime salazarista : a Rádio Portugal Livre, do PCP, emitindo a partir de Praga, e Rádio Voz da Liberdade, da Frente Patriótica de Libertação Nacional, que emitia de Argel.
Os emigrantes eles mesmos tinham poucos meios de expressão mediática. Estávamos ainda na era da máquina de datilografar e dos estêncis que davam pouquíssima margem de manobra em termos de grafismo e de paginação. Houve depois a fotocópias, que foram num primeiro tempo caras e de má qualidade. Mas, apesar destas deficiências técnicas, apareceram então muitos folhetos e jornalitos, sobretudo ligados a partidos de esquerda ou esquerdistas e a associações de trabalhadores.
Uma mutação tecnológica importante
O 25 de Abril chegou numa altura em que, nos anos 1970-80, se estava a processar uma mutação tecnológica importante no sector dos média com a fotocomposição, o offset, a modulação de frequência, as redes de cabo, os satélites geoestacionários e as antenas parabólicas.
As condições técnicas e financeiras de produção dos jornais impressos passaram assim a ser mais ligeiras. Provocando uma explosão de novas publicações destinadas a públicos limitados. E, no caso português, dada a nova conjuntura política no país (favorável à informação, à interpretação como a tomada de posição), o número de publicações destinadas aos emigrantes aumentou consideravelmente.
Depois de uma fase caótica, anarquista, operou-se um estruturação das chamadas “rádios livres” surgidas então, estruturação que deu lugar ao aparecimento de muitas emissões em línguas estrangeiras, assumidas por gente proveniente de diversas origens estrangeiras.
Paralelamente, as antigas rádios e televisões institucionais passaram também a propor emissões em línguas da emigração : caso da belga pública RTB ou da luxo-francesa privada RTL, por exemplo.
Já nos anos 1980, com os satélites geoestacionários, as redes de cabo e as antenas parabólicas, os emigrantes passam a ter cada vez mais acesso a televisões dos países de origem. E cada vez mais os lares, sobretudo naqueles em que os casais têm a mesma origem nacional, passam a ter permanentemente ligadas estações de televisão do país de origem.
Acessoriamente, estas novas tecnologias também permitem o acesso à rádio dos países de origem. Mas isso é mais raro. Até porque o média dominante dos anos 1970-90 é a televisão, em termos de audiência como de tempo que lhe é consagrado pelas pessoas. E até porque anunciantes e publicitários estão antes do mais interessados no média televisão e no impacto persuasivo da imagem animada.
Uma nova revolução que vai mudar tudo
Uma nova revolução ir-se-á operar na segunda metade dos anos 1990 com o aparecimento e rapidíssima expansão na internet que passou a estar acessível ao público em geral.
Ora, progressivamente, a internet vai permitir ter acesso aos jornais, às rádios e às televisões não só nacionais (como era o caso já antes), mas também aos média regionais e locais (o que era impensável antes no que dizia respeito às rádios e às televisões). O que faz que os média tradicionais perderam vendas, assinaturas e audiências, devendo partilhar estas doravante com muito mais atores nos sectores média.
Mas a internet vai também permitir o aparecimento de um tipo de correio novo : o correio eletrónico (os chamados “mails”), gratuito e instantâneo, estejam onde estiverem no mundo o expedidor como o receptor. Enquanto correio postal foi perdendo terreno.
Mais : a internet vai permitir o lançamento a custos relativamente reduzidos de jornais escritos, sonoros e audiovisuais digitais, autorizando portanto uma multiplicação dos média que têm os próprios meios emigrantes (imigrantes) como origem.
Mais ainda : o aparecimento de toda uma série de aplicações (Skype, Facebook, FaceTime, WhatsApp,…) vai dar uma dimensão mundial às comunicações em tempo real, fazendo perder terreno ao velho telefone e sobretudo ao velho telefone fixo. Doravante é possível não só falar como ver o(s) nosso(s) interlocutor(es) com custos praticamente iguais a zero (se excluirmos o custo dos equipamentos : computadores, tabletes, telemóveis, acesso a redes de telecomunicações, energia elétrica,…).
Esta evolução tecnológica no sector dos média processou-se a uma velocidade vertiginosa e sem igual na história da informação e da comunicação. E, manifestamente, esta evolução seduziu a grande maioria dos cidadãos no nosso mundo ocidental industrializado.
Consequências inesperadas e contraditórias
No entanto, em termos de populações emigrantes (imigrantes) esta evolução tem consequências surpreendentes, inesperadas e de certo modo contraditórias.
Nos anos 1960-70, a ausência quase total de média do país origem dos emigrantes, assim como a grande lentidão e os custos elevados das comunicações, faziam que a inserção na sociedade de acolhimento era o caminho mais curto, mais fácil, de modo a procurar sobreviver social e afetivamente. Aquele para o qual o e-imigrante era naturalmente convidado. Tanto mais, quando os filhos iam nascendo e integrando muito naturalmente graças à creche, à escola e ao conhecimento da língua do país de acolhimento como primeira língua de instrução e de relacionamento social. Até porque as escolas do país de origem (no caso de Portugal) eram raras ou inexistentes. Pelo que os média eram então um fator de integração social.
A partir dos anos 1980 e sobretudo nos anos 1990-2000 assistimos ao aparecimento de uma espécie de vivência à distância no país de origem. “País de origem” que começava de facto a ser cada vez mais o dos pais e até mesmo dos avós, e não propriamente os dos filhos ou dos netos destes.
Nos lares de emigrantes, passa-se a consultar os jornais portugueses (publicados em Portugal ou no país de acolhimento), a ouvir em permanência rádios portuguesas (também aqui baseada em Portugal ou no país de acolhimento) e a ver televisões portuguesas (quase sempre baseadas em Portugal). Mas passa-se também a recorrer diariamente a todas essas novas aplicações que lhes permitem falar e ver-se com quem ficou em Portugal e com gente de outros núcleos de portugueses espalhados pelo país de acolhimento e até mesmo pelo mundo fora.
A alternativa : iver-juntos ou viver-à-parte
Assiste-se assim a um fenómeno de desinserção da sociedade de acolhimento ou até mesmo, no caso dos filhos e dos netos, da sociedade onde nasceram e sempre viveram. E, paralelamente, assistimos ao aparecimento de uma noção de comunidade cada vez mais forte e mesmo, claramente, a um comunitarismo que leva a viver em circuito fechado, em “vase clos”.
Um comunitarismo que transplanta para o país de acolhimento — de maneira ainda mais evidente que antes — tradições, comportamentos e temáticas próprias ao país de origem. Um comunitarismo que tem criado problemas cada vez mais inquietantes no seio da União Europeia, numa sociedade onde o viver-juntos (o “vivre-ensemble”) deixou cada vez mais de ser uma realidade palpável, uma necessidade concreta para que a sociedade democrática possa sobreviver e ser cada vez mais forte e coesa.
A revolução dos média (no sentido mais largo da palavra) provoca assim o aparecimento de uma cartografia composta por ilhéus comunitaristas disseminados através de um território outrora chamado nação, onde identidades socioculturais fortes e diversas impedem agora a concretização de uma mestiçagem indispensável à integração e à coesão social. Integração que, de qualquer modo, não poderá significar homogeneização ou aniquilamento das genealogias dos indivíduos.
A questão que se põe pois hoje em dia em matéria de e-imigração e média é a de um viver-juntos na sociedade de acolhimento ou a de um viver-à-parte, numa forte identidade nacional de origem desinserida da sociedade de acolhimento em redor e, hélas !, marginal em relação a esta mesma sociedade…

Texto que serviu de base à comunicação no colóquio Labirintos da Memória II, Fundão, 29 de julho de 2017.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Coincidências e interrogações

J.-M. Nobre-Correia
Política : Afinal o governo e a maioria parlamentar não tiveram a esperada curta vida. E “o diabo” anunciado também não veio. Terá então a direita sido levada a conceber uma nova estratégia ofensiva ?…

A leitura de Quando Portugal ardeu [1] tem algo de chocante, de profundamente chocante. Sobretudo para quem, nesse “pós-25 de Abril”, vivia longe do país, na “capital da Europa”. Até porque, nesse tempo, poucos jornais portugueses lá chegavam e chegavam tarde. Porque a rádio dificilmente se captava e só se conseguia fazê-lo em onda curta, em más condições. Televisão, nem pensar nisso. E muito menos internet, que nem sequer existia para o comum dos mortais.
É claro que pelos média estrangeiros de referência, sabia-se que o “pós-25 de Abril” não era precisamente um mar de rosas. E que, sob as aparências de uma “revolução alegre e tranquila”, muita violência dominava a vida quotidiana. Mas de lá a imaginar que a violência política atingia tais níveis com incêndios, atentados e assassinatos que raramente tiveram que afrontar o braço da justiça do novo Estado democrático…
Publicado em março, as “histórias e segredos da violência política no pós-25 de Abril” descritas em Quando Portugal ardeu vêm forçosamente ao espírito nestes últimos dias. Com o trágico incêndio de Pedrógão Grande : saberemos talvez um dia se se tratou de fogo declarado por causas meteorológicas raras, se fruto de incúria humana ou de vontade deliberada, grandemente incrementado por outras causas meteorológicas ainda mais raras.
Que tão trágico acontecimento venha a servir rapidamente de arma de arremesso da direita não é propriamente surpreendente. Que poucos dias depois tenha havido um enorme roubo de armas numa instalação militar, isso já constitui uma coincidência altamente preocupante. E que, no caso do incêndio como no do roubo de armas, tenham sido jornais espanhóis a servir de agentes de destabilização do atual poder político português é de natureza a suscitar inquietantes interrogações.
Até porque, El Mundo (que não existia ainda por alturas do “pós-25 de Abril”) sempre foi um diário marcadamente de direita. Mas um diário de uma direita ativista, intervencionista, que procura pesar na vida política não só dos governos espanhóis, mas até e muito particularmente na vida política da direita e dos governos de direita. Um ativismo tal que leva o seu proprietário (o grupo italiano RCS, representante dos meios industriais e financeiros de Milão) a decidir destituir o fundador e primeiro diretor, Pedro J. Ramirez, em fevereiro de 2014. O mesmo que virá a ser fundador e diretor do diário digital El Español, lançado em outubro de 2015.
Que tenha sido El Mundo, que deixou de ter correspondente em Portugal, a publicar textos de um ilustre desconhecido (“sob pseudónimo”) num tom altamente agressivo em relação ao governo de António Costa é no mínimo intrigante. E que seja depois El Español a publicar uma lista detalha dos armamentos roubados é ainda mais intrigante.
Sabemos que em conversa dominada pela arrogância ou por um pretenso humor, segundo os meios socioculturais, Portugal é para boa parte dos espanhóis uma “anomalia” na mítica “unidade ibérica”. Como sabemos que a extrema direita nunca foi afastada do poder em Espanha e que a direita ficou, ela, largamente marcada pelo franquismo. Como sabemos ainda o papel que tiveram os meios dirigentes espanhóis no acolhimento de todos aqueles que na extrema direita salazarista como na direita radical conservadora semearam o terror em Portugal nos anos 1974-76 e planearam golpes de Estado e sonharam até com guerras civis.
Logo de início, a direita portuguesa estimou que o governo do PS e a maioria parlamentar de esquerda não teriam muito tempo de vida. Os meses passando, achou que “o diabo” chegaria na “rentrée” de setembro do ano passado. Nada porém ocorreu como esperava e os resultados positivos da governação foram-se acumulando. Que em vésperas de nova “rentrée”, a direita mais radical e mais antidemocrática tenha concebido novos tipos de ação, é hipótese que não pode deixar de ser encarada. Tanto mais quando é certo que, em poucos dias, toda uma série de meios socioprofissionais (justiça, enfermeiros, militares,…) começaram a dar sinais alarmantes de que, para eles, a atual governação, e porventura até o atual estado da democracia social, já durou demasiado tempo…


[1] Miguel Carvalho, Quando Portugal ardeu, Alfragide, Oficina do livro, 2017, 556 p.



Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 4 de julho de 2017.