domingo, 29 de janeiro de 2017

Um paroquialismo indesejável



J.-M. Nobre-Correia
Média : Há maneiras de escrever na imprensa portuguesa, e nomeadamente pelos chamados “comentadores”, que põem em evidência o que a separa fundamentalmente das suas congéneres europeias…
Vicente Jorge Silva tem o nome já gravado na história contemporânea da imprensa portuguesa. Porque esteve na origem do relançamento do Comércio do Funchal que, em tempos de salazarismo, passou a ter evidente audiência em meios jovens e intelectuais do continente. Porque criou a “Revista” do Expresso, onde a reportagem e a investigação passaram a fazer parte do jornalismo português. Porque lançou o Público, que constituiu uma lufada de ar fresco e inovador na imprensa nacional.
Hélas !, trois fois hélas !, Silva dá-nos hoje no Público — a que regressou e onde é agora titular da última página das edições de domingo — uma triste ilustração do que há de paroquial no jornalismo deste país. Pela boa razão que a função de Silva, neste caso concreto, é ser cronista ou analista. Ora, em qualquer dos casos, um jornalista não escreve “cartas abertas” a um chefe de Estado. Muito menos se dirige a ele em termos de “caro amigo”, de “caro Marcelo”, de “você”. E nem sequer termina o seu texto (crónica ?, análise ?) com um “afectuosamente seu, Vicente”…
A função de uma crónica ou de uma análise, com preocupações estilísticas de escrita eventualmente diferentes, é de fazer compreender aos leitores o que (no caso do tema de hoje) há de desfasado na atitude do chefe de Estado e de menos incisivo na posição assumida por ele perante Donald Trump. Com as desejáveis serenidade de tom e devida distância em relação à pessoa e aos temas de que trata o texto.
Adotando o tom que adopta, o autor põe-se de facto ele mesmo em evidência, dizendo aos leitores que ele, Vicente Jorge Silva, jornalista, até é amigo de Marcelo Rebelo de Sousa, primeiro personagem do Estado. O que provavelmente, até agora, só os iniciados sabiam !
Recorde-se então aqui, mutatis mutandis, a atitude Jacques Marchand, quando era director do diário desportivo L’Équipe : “Tomando conhecimento da nomeação como secretário de Estado do ‘spinter’ Roger Bambuck, que conhecia particularmente bem, foi dizer-lhe educadamente que, doravante, tratá-lo-ia por Senhor ministro e por senhor enquanto se mantivesse nestas funções” [1]. Cada um no seu estatuto, mantendo a desejável distância : noções de base que os “comentadores” portugueses não deveriam perder de vista…



[1] Citado por François Simon, Journaliste. Dans les pas d’Hubert Beuve-Méry, Paris, Arléa, 2005, p. 44.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Um pedido de boicote absurdo

J.-M. Nobre-Correia
Média : Um grande nome da literatura portuguesa propõe que se deixe “de comprar o Público”. Sugestão tanto mais estranha que os escritores se queixam dos baixos índices de leitura. Ou será que os jornais são assim tão lidos ?…

Um dos romancistas portugueses mais em vista, fez esta madrugada uma estranha proposta aos seus “5000 amigos” no Facebook : “Por favor, deixem de comprar o Público”. Com a seguinte argumentação : “O jornal foi abastardado, transformou-se numa tarjeta panfletária de interesses muito localizados, muito desmascarados, muito à mostra. Todo um fingimento descaradamente foleiro. Não há, a nenhum respeito, a menor confiança naquilo. Um cartaz ou uma pichagem («Vivam os nossos amados patrõezinhos, mai-las suas opiniões !») resolvia-lhes o servilismo, escusavam de tanto aparato de letras e bonecos. Menos 5000 leitores, eu sei, significa pouco. Basta que o engenheiro beneficiário suba o preço de alguns iogurtes e estará compensado. Mas o sentimento de deixarmos de andar enrolados numa farsa, encenada por gentalha menor, também compensa não ?”.
Pouco importa aqui saber se se está de acordo ou não com a argumentação do autor. Um facto é incontestável : há uma evolução percetível no posicionamento editorial do Público desde que a nova direção entrou em funções. Mas não terá havido outras evoluções percetíveis (e num dos casos até politicamente muito percetível) depois das precedentes direções terem assumido o poder editorial no jornal ?
Uma das acusações mais habituais nestes últimos meses é a do Público ter iniciado uma viragem para a direita. Nestes últimos dias insistiu-se nomeadamente no facto de ter dispensado três colaboradores exteriores jornalistas, (auto-)designados como sendo “de esquerda”. O que não impede que se encontrem nas páginas de hoje do jornal nomes como Joana Mortágua, Francisco Louçã, Domingos Lopes e Rui Tavares que, como toda a gente sabe, não se situam exatamente à direita e até têm ou tiveram responsabilidades em formações políticas da esquerda radical. Mesmo que haja quem possa pensar que as quatro publicações de hoje obedecem a uma pura “tática” de diversão da direção no contexto atual…
De qualquer modo, o boicote de um jornal só se pode justificar quando este passa subitamente a tomar atitudes totalmente inadmissíveis e em radical desacordo com as que sempre foram as suas opções sociopolíticas essenciais ou com os mais elementares princípios da ética. Será o caso no que diz respeito ao Público ? Com os quatro precedentes diretores, terá o jornal sempre mantido opções idênticas ou pelo menos próximas das que foram as de Vicente Jorge Silva, seu primeiro diretor ?
Numa perspetiva mais mediática : terá o mínimo sentido fazer um convite ao boicote da compra, e por conseguinte da leitura, de um jornal num país que conta miseravelmente apenas cinco diários generalistas ditos “nacionais” ? Num país que tem, e de longe, as mais baixas taxas de leitura da imprensa diária da Europa ocidental (e o romancista provavelmente sabe-o bem, até porque viveu num país onde a imprensa tem um índice de penetração quase dez vezes superior) ? E pensa seriamente o autor do convite ao boicote que os leitores do Público vão passar a comprar outro diário (quando toda a história da imprensa europeia mostra que o desaparecimento de um jornal ou o seu boicote provoca uma inevitável e muito substancial redução do “leitorado” global da imprensa) ? E se de facto parte dos leitores do Público passarem a comprar (imagina-se) o Diário de Notícias (o jornal que se situa numa categoria similar), não tem sido este também acusado pelos mesmo meios socioculturais de ter igualmente “virado à direita” ? Em que ficamos ?…
A triste constatação que tem de ser feita é que, ao convidar os leitores a deixarem “de comprar o Público”, o romancista que toma tal iniciativa está incautamente a serrar o ramo da árvore da leitura em que está sentado. É porém possível que ele esteja pronto a assumir as consequências da sua iniciativa. Mas quem deseja que haja cada vez mais e mais leitores de jornais em Portugal só pode lamentar a iniciativa absurda do escritor em questão. Mais valia que tivesse proposto aos jornalistas vítimas de sucessivos despedimentos nestes últimos tempos que ousassem lançar novas publicações impressas ou digitais : ficaríamos então culturalmente mais ricos [1]



[1] Ver também J.-M. Nobre-Correia, « Amálgamas que impedem de ver claro », in Notas de Circunstância 2, 17 de janeiro de 2017.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Amálgamas que impedem de ver claro

J.-M. Nobre-Correia
Média : Quando os defensores daquilo que consideram ser um jornalismo de qualidade manifestam solidariedades estimáveis, mas fazem processos de intenção que são teoricamente inadequados…

Anda por aí uma grande agitação nas chamadas redes sociais ! E isto porque vários cronistas (“colunistas” como se diz em português traduzido do inglês) têm sido dispensados, uns atrás dos outros, por novas direções de jornais. Como já acontecera antes por ocasião da entrada em funções de outros novos diretores.
É sempre desolador quando jornalistas do quadro ou jornalistas permanentes avençados são despedidos pelos média. Que mais não seja porque é esse o ganha pão deles. E a extremamente circunscrita paisagem mediática portuguesa não lhes garante que consigam arranjar de novo emprego na mesma área. Ainda menos quando a situação financeira dos média é globalmente bastante crítica, como é o caso atualmente.
Por outro lado, é trágico ver profissionais arredados de uma profissão em que muitas vezes se lançaram persuadidos de irem cumprir uma missão. Convencidos que a sociedade iria funcionar um pouco melhor graças à contribuição deles como jornalistas. Enquanto que do outro lado, leitores, ouvintes, espectadores ou internautas ficam geralmente confrontados a jornais mais ligeiros, menos consistentes, os jornalistas despedidos não sendo na maior parte do casos substituídos por novos contratados.
Este sentimento de sincera comiseração para com os jornalistas despedidos não toma caraterísticas idênticas quando se trata de despedimentos de cronistas. Que mais não seja porque um cronista vive rarissimamente da sua colaboração pontual nos média : os dedos de uma mão deverão ser suficientes para contar o número dos cronistas de luxo que, em Portugal, poderiam viver unicamente das receitas provenientes de um jornal. Porque a principal ocupação de um cronista exterior à redação não é essa, mas sim a ligada ao seu verdadeiro estatuto profissional, de onde provem aliás a maior parte das suas receitas. Possam embora a supressão das provenientes dos média provocar uma diferença substancial no orçamento pessoal.
Não é porém esta nova situação financeira desfavorável que suscita a atual agitação nas chamadas redes sociais. Mas sim o facto de recentes como anteriores despedimentos levarem vítimas deles, assim como amigos, leitores, ouvintes ou espectadores, a evocarem muitas vezes atos de “censura”, de “caça às bruxas” ou de “insuportável” viragem política do média. Quando boa parte das vezes nem sequer é disso que se trata…
A realidade dos factos é que os jornais (impressos, radiofónicos, televisivos ou digitais) têm proprietários. E em Portugal, como nos outros países europeus, quem manda num jornal são os seus proprietários, com aquelas exceções em que rádios, televisões e sítios de serviço público de que o Estado é in fine o proprietário, não podendo este geralmente agir soberanamente, a seu belo prazer. São eles pois que designam diretores de redação, como diretores de administração, possa embora haver processos de consulta e voto dos jornalistas e dos outros membros do pessoal.
Ora, todo e qualquer novo diretor de uma redação tem o direito de impor a sua marca ao jornal que passou a dirigir. De maneira mais ou menos suave e progressiva (como é estrategicamente aconselhável) ou de maneira mais brusca e radical (o que é na maioria dos casos pouco desejável, até porque suscetível de provocar reações de desconcerto do público). E uma das iniciativas mais habituais é a de restruturar os serviços e as chefias da redação, assim como a de redistribuir os “pelouros” que cada redator deverá doravante assumir.
Outra das iniciativas habituais, e que intervêm geralmente num segundo tempo, é a de recompor a equipa de colaboradores exteriores. Convidando novos colaboradores de que se aprecia a produção pela originalidade temática, a elegância da escrita, o posicionamento social, político ou cultural, considerando-os uma mais valia para o jornal. Afastando outros habituais colaboradores pouco ao gosto da nova direção, porque os temas geralmente propostos não lhe dão satisfação, porque a qualidade da escrita lhe parece deficiente, ou porque orientação ideológica dos textos não lhe agrada, estimando mesmo que entram em conflito direto com o novo projeto de jornal.
De modo algum se trata aqui de avaliar as qualidades da produção dos colaboradores dispensados nas últimas vagas no Diário de Notícias ou no Público, até porque todos eles contavam com admiradores e fiéis leitores. Mas estes dois jornais têm desde há poucos meses novos diretores escolhidos pelas sociedades editoras e eles próprios constituíram novas equipas de direção. Que estas repensem os conteúdos (o que é perfeitamente visível nos dois casos) e reformulem as equipas de colaboradores, são decisões que fazem parte das prerrogativas normais de uma direção. Que haja leitores descontentes é também perfeitamente normal e isso acontece sempre quando um jornal dispensa um cronista, seja ele qual for. E é naturalmente compreensível e perfeitamente humano que os que foram dispensados experimentem momentos de decepção, de tristeza e de raiva.
Por regra, na maior parte dos casos, o reposicionamento editorial de um jornal traduz uma reorientação da sua sensibilidade sociocultural e política. E isso até parece ser sensível no caso do Diário de Notícias e é-o de maneira mais notória no caso do Público. Mas não se abuse da noção de censura que tem em Portugal uma história particularmente sinistra e que, à primeira vista, nem parece ser claramente pertinente nas recentes ocorrências [1]



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Uma indesejável confusão », in Notas de Circunstância 2, 30 de julho de 2015.
J.-M. Nobre-Correia, “O outro pilar da repressão”, in JL Jornal de Letras, Lisboa, 17 de agosto de 2016, republicado in Notas de Circunstância 2, 17 de agosto de 2016.

domingo, 8 de janeiro de 2017

A triste demonstração…

J.-M. Nobre-Correia
Média : Sabíamos que vivíamos num país onde a informação de qualidade é escassa e até bastante ligeira. Mas o falecimento hoje de Mário Soares trouxe a prova de uma situação ainda mais desoladora…

Há um princípio de base aplicado em todas as redações dos grandes jornais (impresso, radiofónicos ou televisivos) e sobretudo nos jornais de referência : preparar  o mais cedo possível a necrologia de um(a) grande homem (ou mulher). A partir do momento em que ele (ela) ocupa altas funções. Quando passa a ter uma idade avançada. Quando adoece com séria gravidade. Pela simples razão que ele (ela) pode vir a desparecer de um momento para o outro.
É preciso ter então os textos e ilustrações, os documentos sonoros ou vídeo, devidamente preparados para dar resposta à procura dos leitores, ouvintes ou espectadores. E ter a lista cuidadosamente preparada dos especialistas que convirá convidar para escrever ou entrevistar. Para procurar ser editorialmente melhores e mais rápidos do que os concorrentes. Para ter a oportunidade de afirmar as qualidades performantes de uma redação.
Mário Soares foi um dos grandes líderes da resistência ao salazarismo. Um dos maiores e mais duradoiros políticos do Portugal democrático. Ministro, primeiro ministro e presidente da República, isto é : ocupou as mais altas funções do Estado. Tinha 92 anos : uma idade bastante avançada. Tinha tido um grave acidente de saúde há três anos, em 2013, e estava agora hospitalizado há mais de três semanas. Razões sobejas, mais que sobejas, para que pelo menos as redações dos médias de informação geral deste país tivessem feito há muito tempo o trabalho preparatório de documentação, de escrita, de maquetagem e de montagem para estar pronto quando o desenlace viesse a ter lugar.
O desenlace teve lugar esta tarde. E, consultando as edições em linhas dos diários “nacionais” na internet, a impressão que fica, num primeiro tempo, a meio da tarde, é que apenas o Diário de Notícias tinha feito um enorme trabalho para estar preparado no dia fatal. Esperando que as edições em papel de amanhã dos mesmos diários “nacionais” sejam mais bem satisfatórias e convincentes…
Quanto às televisões, assiste-se ao vazio e à tristeza habituais ! O que é particularmente chocante na pública RTP 1 : antes das 20h00, tivemos apenas direito aos eternos “diretos” (com a habitual dose em menor ou maior grau de temas absurdos) e aos não menos eternos “comentadores” (poucos : a maioria deles devia estar em fim de semana longe de Lisboa). Com as mesmas sequências repetidas indefinidamente. E nada de grandes documentários ! Nada de grandes perspetivações históricas e politológicas ! Enquanto na SIC e na TVI, antes da hora do jantar, a programação habitual nem sequer tinha sido alterada !…
Que tínhamos uma informação pobre, pouco abundante, pouco sólida, pouco diversificada, era uma evidência para quem está há longos decénios habituado a outras formas de tratamento da atualidade. Que diferença abissal, por exemplo, com os média franceses por ocasião da morte igualmente previsível do ex-presidente François Mitterrand em 1996 ! Enquanto por cá, no tal “jardim à beira-mar plantado”, é sobretudo um quase deserto que domina a paisagem jornalística !…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 7 de janeiro de 2017.