domingo, 12 de março de 2017

A nova revolução francesa ?



J.-M. Nobre-Correia
Política : Os acontecimentos que tiveram lugar a partir de 1789 provocaram uma rotura fundamental na História do país como do resto da Europa. As eleições que se aproximam poderão bem provocar outra viragem decisiva…

Falar hoje de política francesa supõe um indispensável preâmbulo : tudo pode mudar ainda de maneira radical em relação ao que parece poder diagnosticar-se seis semanas antes da primeira volta das eleições presidenciais. Que mais não seja porque a Justiça tem em curso procedimentos em relação a pelo menos dois candidatos. Mas também porque os conflitos internos no seio das duas principais formações políticas estão longe de estar apaziguados…
De qualquer modo, as próximas eleições presidenciais, seguidas de eleições legislativas, poderão bem fazer desmoronar o sistema político francês, não deixando pedra sobre pedra do que foi a V.a República erigida pelo general Charles de Gaulle. Até porque a França vive desde há meses uma série de acontecimentos inéditos na sua história recente. Com o presidente da República sortant que renuncia a candidatar-se a novo mandato. E com as duas principais formações políticas (o Parti Socialiste [PS] e Les Républicains [LR] [1]) organizando eleições primárias de onde saem vencedores inesperados, eliminando os “prometidos” que média e sondagens iam anunciando…
A recomposição da vida democrática
Estas mesmas sondagens, cuja fiabilidade tem sido posta em causa, dizem agora que três candidatos se disputarão de facto a primeira volta das presidenciais : o centrista Emmanuel Macron, a extremista de direita Marine Le Pen e o conservador François Fillon. Ficam muito provavelmente excluídos da segunda volta todos os outros, nomeadamente o socialista Benoît Hamon, vencedor das primárias da esquerda alargada [2], e o autoproclamado candidato de esquerda radical Jean-Luc Mélenchon.
A concretizarem-se tais previsões, isso significaria que a esquerda, e mais particularmente o PS, pela segunda vez na história da V.a República não estaria presente na segunda volta das presidenciais [3]. A direita do PS tudo tem feito para que assim seja, das críticas públicas ao posicionamento de Hamon às adesões de grandes figuras do partido à candidatura do centrista Macron. Enquanto que o esquerdista Mélenchon nada mais deseja do que a implosão do seu antigo partido, esperando assim construir uma nova formação “autenticamente de esquerda”, com franjas de esquerda do PS e o que resta do Parti Communiste Français, assim como com algumas das micro-formações da esquerda radical e do esquerdismo.
O reposicionamento do PS à esquerda é também a ambição de Hamon. Mas a batalha será rude, pois não interessa à direita social-liberal entregar os destinos do partido a quem foi notoriamente crítico em relação à ação dos governos presididos por François Hollande nos últimos anos. E a manifesta incapacidade e má vontade da direita do partido em afirmar uma união de fachada em relação ao candidato da esquerda traz à luz do dia a violência interna que se declarará depois das eleições. Logo por ocasião da elaboração das listas para as legislativas de 11 junho, mais ainda quando for preciso fazer alianças para enfrentar a segunda volta de 18 e sobretudo depois do provável resultado insatisfatório destas. Tanto mais que Manuel Valls, ex-primeiro ministro que considera que as “duas esquerdas” são “irreconciliáveis”, procurará reposicionar o PS no social-liberalismo com que ele próprio se identifica.
Les Républicains estarão confrontados a uma situação relativamente idêntica caso Fillon não consiga vir a ser um dos dois candidatos que se afrontarão na segunda volta das presidenciais. Muito embora as diferentes correntes do partido estejam a dar uma imagem pública de união, depois de uma fase em que as hostilidades em relação ao candidato do partido vieram abertamente a público, por vezes seguidas de afastamentos da sua campanha. Porém, depois das duas eleições, e até talvez já antes das legislativas, a confrontação entre Nicolas Sarkozy e Alain Juppé parece inevitável.
A crise anunciada da V.a República
A recomposição da paisagem partidária francesa parece pois estar inscrita num horizonte imediato. A acreditar na fiabilidade das sondagens, Emmanuel Macron tem grandes probabilidades de vir a ser o próximo presidente da República, pois é dificilmente imaginável que a “disciplina republicana” não leve na segunda volta os eleitores de esquerda a escolhê-lo na confrontação com Marine Le Pen ou mesmo com François Fillon. Mas a questão que se põe imediatamente é a de saber como é que Macron, personagem sem filiação partidária e sem partido, conseguirá constituir uma formação política capaz de se impor no parlamento e de apoiar solidamente a ação governamental do novo presidente. E a questão seguinte será a de saber que correntes irão reforçar o novo partido de Macron após as presidenciais, que partidos se aliarão a ele antes da segunda volta das legislativas e o apoiarão depois de facto na vida parlamentar.
Atualmente, Macron conta com apoios vindos da direita (como o ex-fascista reconvertido em liberal Alain Madelin), do centro (nomeadamente o democrata-cristão François Bayrou que foi três vezes candidato à presidência da República) ou da esquerda (vários expoentes socialistas como comunistas, nomeadamente o ex-secretário geral do PCF Robert Hue). Alain Juppé e Manuel Valls juntar-se-ão também a ele na segunda volta das presidenciais ou na segunda volta das legislativas ?
Por outro lado, caso venha a reforçar a sua posição no seio do LR, Sarkozy conseguirá atrair e absorver parte do Front National de Marine Le Pen ? O FN é antes do mais uma empresa de caráter familiar onde pai (Jean-Marie), filha (Marine) e neta (Marion) controlam as estruturas e os bens do partido. Mandatários haverá que se cansarão de continuar eternamente marginalizados, longe do Poder real : um LR reposicionado ainda mais à direita por Sarkozy tentá-los-á ?
Após as eleições presidenciais e as eleições legislativas há grandes probabilidades que o edifício construído antes do mais pelo general Charles de Gaulle e depois, de certo modo, por François Mitterrand venha a desabar. As duas formações políticas essenciais que foram os pilares-mestres da V.a República correm em todo o caso um sério risco de se desmoronarem e desaparecerem da cena política.
A aniquilação de formações tradicionais sustentáculos do sistema democrático já ocorreu na Itália com a Democrazia Cristiana e o Partito Comunista Italiano, e até de certo modo o Partito Socialista Italiano. Mas a recomposição em França não deixaria de ter repercussões ideológicas e estruturais no resto da Europa, até pelo peso político que o país tem no seio da União Europa, como pelo peso cultural que é o seu no resto da Europa, digam o que disserem por aí os amadores de simplismos e de verdades prontas-a-proclamar…



[1] Les Républicains é o atual nome do chamado « partido gaullista ». Partido liberal-conservador que sucedeu à UMP (2002-2015), ao RPR (1976-2002), à UDR (1967-1976) e à UNR (1958-1967) fundada por ocasião da chegada de Charles de Gaulle au poder.
[2] V. a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « A mutação que se anuncia », in Notas de Circunstância 2, 2 de março de 2017.
[3] Em 2002, o socialista Lionel Jospin foi eliminado logo na primeira volta, tendo-se confrontado na segunda volta o gaullista Jacques Chirac e o presidente do FN, Jean-Marie Le Pen. Formalmente, o (novo) Parti Socialiste francês foi (re)fundado em 1971. Mas antes, em 1969, a esquerda tinha já estado ausente da segunda volta das eleições presidenciais de 1969.

Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 11 de março de 2017.

quinta-feira, 2 de março de 2017

A mutação que se anuncia

J.-M. Nobre-Correia
Média / Política : O arrastar da “crise” dos anos 1970 e o seu aprofundamento em 2007-08 levam a esquerda europeia a entrar ela mesma em crise e a procurar agora redefinir os seus posicionamentos sociais, culturais e políticos…

Os média que temos andam geralmente distraídos em relação ao que se passa na Europa. Isto é : no espaço geográfico que é desde sempre o nosso. Mas também na União Europeia (para além das versões oficiais de Bruxelas ou de Lisboa). Isto é : no espaço político-económico de que somos membros há três decénios. E da atualidade na Europa latina. Isto é : do espaço cultural de que somos parte integrante há longos séculos.
A explicação para tais distrações : redações diminutas, com pouca ou nenhuma gente especializada nestas matérias e raros correspondentes realmente competentes. Pelo que as ditas redações recorrem sobretudo às agências de informação mundiais que são antes do mais estado-unidenses (por vezes com rótulo britânico) ou à naturalmente insuficiente agência nacional. Na melhor das hipóteses consultam também a edição gratuita em linha de The Guardian e mais raramente (segundo os gostos) El País ou El Mundo, partindo da hipótese totalmente errada de que “toda a gente” nas redações fala inglês e castelhano !…
Ora, nos países mais próximos geográfica e culturalmente assiste-se a prenúncios de mutações políticas importantes no campo da esquerda. Mutações de certo modo históricas, até certo ponto comparáveis às dos anos 1920. Como em Espanha, onde o arrastar da crise de indefinição sociopolítica do Partido Socialista Obrero Español (PSOE) leva leva o antigo secretário geral, Pedro Sánchez, a entrar em campanha junto dos militantes para procurar voltar à liderança do partido. Mas também com a crise adiada de Podemos a que o recente congresso não conseguiu pôr termo : aliado possível do PSOE, como quer a corrente minoritária do número 2, Iñigo Errejón, ou ambicionando afirmar-se como a grande formação de esquerda perante um PSOE em vias de diluição eleitoral, como pretende a corrente maioritária do número 1, Pablo Iglesias ?
Na Itália, o Partito Democratico (PD), resultado sobretudo da confluência das correntes de esquerda da antiga Democrazia Cristiana e as de direita do antigo Partito Comunista Italiano, entrou em crise depois do fracasso do referendo sobre a reforma constitucional de dezembro e a sequente demissão de Matteo Renzi das funções de primeiro ministro e de secretário do PD. O que levou a um afastamento voluntário da ala esquerda constituída precisamente ontem em Movimento Democratico e Progressista. Conseguirá este reencontrar as formações que não tinham aderido à fundação do PD e as que fizeram sucessivamente cisão deste partido, ultrapassar a tradicional fragmentação da esquerda radical italiana e constituir uma nova formação de peso na cena parlamentar do país ?
Em previsão das eleições presidenciais e legislativas em França, nos termos normais da “mandatura” e da legislatura, dois “grandes” candidatos de esquerda vão normalmente afrontar-se [1]. Um, Jean-Luc Mélenchon, antigo ministro socialista que deixou o PS em 2008 e se autoproclamou candidato em julho de 2015, intenção que confirmou em fevereiro de 2016. O outro, Benoît Hamon, antigo ministro socialista também, crítico em relação à ação governamental do seu partido, candidato vencedor das tardias eleições primárias da esquerda (socialistas, “radicais de esquerda” [2] e ecologistas), tardias porque o presidente François Hollande só em dezembro passado resolveu declarar que não seria de novo candidato.
Com diferenças de calendário em relação às próximas eleições legislativas (que só no caso da França estão fixadas e que, neste caso, serão precedidas pelas presidenciais) o objetivo dos que se afrontam atualmente e disputam as lideranças é evidente : reconfigurar as organizações políticas da esquerda e os posicionamentos sociopolíticos destas. Com o aparecimento de forças sociais-liberais de centro esquerda (lideradas pela atual direção do PSOE, pela corrente do ex-primeiro ministro francês Manuel Valls e pela do ex-primeiro ministro Matteo Renzi) e outras socialistas de esquerda radical (lideradas por Podemos em Espanha, Benoît Hamon ou Jean-Luc Mélenchon em França e pela nova formação criada pelos dissidentes do PD na Itália).
Observam-se também movimentações neste sentido noutros países da União Europa, embora as clivagens anunciadas não venham forçosamente a tomar configurações idênticas nem dimensões comparáveis. Em todo o caso, em todos eles se observa com manifesto interesse pela atual experiência portuguesa de governo. É verdade que já em abril de 1974, Portugal precedeu a saída da Grécia e de Espanha de sistemas ditatoriais e a entrada destes dois países em democracia ; a dinâmica sociocultural dos anos 1974-75 fez então sonhar esquerda radical, esquerdistas e muitos utopistas um pouco por todo o lado ; enquanto que os sucessos da experiência parlamentar e governamental atual fazem compreender a diversas correntes de esquerda que afinal até há provavelmente saídas possíveis para a crise em que mergulha a Europa há uma quarentena de anos e sobretudo desde 2007-08…
O futuro dirá se, depois da reconfiguração dos anos 1920 do chamado “movimento operário” em torno de socialistas e de comunistas, os prenúncios atuais de reconfiguração da esquerda anunciam novas formações. Formações que terão necessariamente que ser mais adequadas a estes primórdios de século XXI, adotando posicionamentos sociais, culturais e políticos inovadores capazes de concretizar mais, mais e melhor a noção elementar de justiça social…



[1] …para além dos habituais « pequenos » candidatos esquerdistas que atingem raramente 1 % dos votos !
[2] “Radicais de esquerda” significa aqui militantes e simpatizantes do Parti Radical de Gauche, partido nascido em 1972 da cisão do velho Parti Radical fundado em 1901. A sua presidente, Sylvia Pinel, foi candidata a esta eleições primárias.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 1 de março de 2017.